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Publicanos e pecadores

 

 

O evangelho do próximo domingo (IV da Quaresma/Ano C) dá-nos conta de que Jesus comia à mesa com publicanos1 e pecadores2 e, por isso, era criticado por fariseus e escribas (cfr. Lc 15, 2). À crítica, Jesus responde com as parábolas da misericórdia3 (Lc 15), uma das mais belas e densas páginas do evangelho de Lucas. Não é, contudo, nas parábolas que nos detemos, mas nas pessoas com quem Jesus convivia, mesmo se a Lei declarava impuro aquele que assim procedia (cfr. Ex 23, 32-33; Lv 20, 26; Js 23, 7-8.12-13). 

Os publicanos eram pessoas particulares que tinham conseguido de Roma o direito de cobrar impostos. Por colaborarem com o Império, eram considerados traidores. Estavam obrigados a entregar uma quantia fixa e, com frequência, cobravam mais do que o devido para ficarem com algum. É por isso que ser publicano era sinónimo de ganância e desonestidade, razão pela qual João Batista lhes recomendava: “Não exijais além do que vos foi estabelecido” (Lc 3, 13). Além disso e à luz da Lei, eram considerados impuros por contactarem com os gentios (neste caso, os romanos). 

Nada disso impede Jesus de chamar para seu discípulo um publicano, de nome Mateus/Levi4 (cfr. Mt 9, 9-13; Mc 2, 13-17; Lc 5, 27-32), ou mesmo de entrar em casa de Zaqueu, um chefe de publicanos5 (cfr. Lc 19, 1-10). E não o faz porque concorde com os seus pecados, mas antes porque pretende que se convertam. De facto, a atitude inclusiva de Jesus manifesta que as pessoas são para ele muito mais importantes do que os pecados que praticam.

Os publicanos também faziam parte dos pecadores públicos, mas a expressão é aqui usada para designar os que não seguiam rigorosamente a Lei de Moisés ou viviam de modo moralmente condenável. Estavam incluídos neste grupo as prostitutas e os adúlteros, os ladrões e malfeitores, os blasfemadores, os endemoninhados e até os samaritanos, considerados impuros pelos judeus, tal como as pessoas que não seguiam as tradições religiosas de forma correta.

As prostitutas eram consideradas pecadoras públicas, por práticas moralmente erradas e socialmente condenáveis, o que acarretava impureza espiritual e ritual (cfr. Lv 19, 29; 21, 7.14; Dt 23, 17-18). O mesmo pode dizer-se dos adúlteros (cfr. Ex 20, 14; Lv 20, 10; Dt 5, 18; 22, 22), dos ladrões e malfeitores (Ex 20, 5; Lv 19, 11), bem como dos blasfemadores6 (cfr. Lv 24, 10-16). Incorrer nestes pecados era ir contra a Lei de Moisés e sujeitar-se à pena máxima da condenação judaica, o apedrejamento (cfr. Lv 20, 10-16; Dt 22, 22-24)7 ou até da condenação romana, a crucificação (cfr. Lc 23, 32-43). 

Noutros casos, fala-se de pessoas consideradas impuras, em virtude das atitudes por si assumidas ou das consequências que herdaram dos antepassados. É o caso de doentes, endemoninhados ou deficientes, acerca dos quais se pensava que ou eles ou os seus pais tinham pecado (cfr. Jo 9, 2)8. Nesta linha se situam também os samaritanos, por se terem afastado da tradição religiosa judaica. A sua impureza era tanto religiosa quanto social, devido às suas práticas religiosas sincréticas ou à sua origem mista (cfr. 2 Rs 17, 24-41; Esd 4, 1-3; Jo 4, 9; Jo 8, 489).

De todos estes textos se depreende que Jesus assume uma atitude inclusiva e misericordiosa, o que sufraga a ideia de uma salvação destinada a todos, mesmo se publicanos e pecadores. Basta, para isso, o arrependimento, a fé e a vontade firme de mudar de vida10


 

1 A palavra grega para “publicano” é telônes, de onde vem a palavra “telónio”, mesa onde se cobra os impostos. Esta classe de pessoas, ordo publicanorum, vivia na capital do Império e tinha os seus delegados nas diferentes províncias do Império.

2 É assim que Jesus refere ser conhecido: “amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11, 9).

3 Neste Domingo, é lida a “parábola do filho pródigo”. O nome foi herdado da tradição, mas não corresponde verdadeiramente ao seu conteúdo. De facto, se quisermos colocar a tónica onde ela deve ser colocada, a designação melhor seria “parábola do pai misericordioso”. Se a olharmos a partir da perspetiva dos filhos, podemos chamar-lhe “parábola dos filhos perdidos”. Facilmente se conclui que o filho mais novo representa os publicanos e pecadores, ao passo que o mais velho é figura dos escribas e fariseus.

4 Mateus era um empregado aduaneiro que trabalhava em Cafarnaum, cobrando provavelmente os impostos da rota comercial que ligava Damasco à Galileia.

5 O chefe de publicanos era uma espécie de supervisor dos outros coletores. Zaqueu seria o responsável máximo pela cobrança dos impostos e taxas de Jericó.

6 A blasfémia consistia em insultar ou desonrar a Deus. Não era apenas um pecado pessoal, mas um ato de ofensa pública contra Deus e contra a comunidade crente. Jesus e Estêvão foram acusados de blasfémia (cfr. Mt 9, 3; Jo 10, 33; At 7, 54-60). Porque atentava contra a ordem religiosa e social, era motivo de punição, por regra com apedrejamento.

7 O Novo Testamento também apresenta casos em que tal esteve para acontecer ou aconteceu mesmo: Mt 26, 65-66; Jo 8, 3-5; At 7, 58-59).

8 É a chamada teologia da retribuição.

9 Neste texto, pode constatar-se que chamar samaritano a Jesus constituía, à época, uma verdadeira ofensa.

10 Cfr Mt 21, 31: “Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus”.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

24 março 2025