No espaço de cinco anos e meio, Portugal terá ido quatro vezes a votos em legislativas (6 de outubro de 2019, 30 de janeiro de 2022, 10 de março de 2024 e 18 de maio de 2025). A última vez que vivenciámos uma instabilidade política comparável, com tantos escrutínios num lapso tão curto, remonta aos primeiros tempos da democracia consolidada. Antes da entrada na CEE, os portugueses foram chamados às urnas devido à dissolução parlamentar por instabilidade governativa (1979), à morte de Sá Carneiro (1980), ao colapso do Bloco Central PS-PSD (1983) e ao fim prematuro do governo minoritário de Cavaco Silva (1985). Desta feita, os motivos são distintos: eleições regulares; reprovação do Orçamento do Estado; demissão de António Costa na sequência de uma investigação por suspeitas de prevaricação e queda de Luís Montenegro após a reprovação de uma moção de confiança devido a alegados conflitos de interesse.
A nível global, a confiança dos eleitores tem sido abalada por sucessivos escândalos de corrupção (Panama Papers), manipulação de dados pessoais (Cambridge Analytica), disseminação de notícias falsas (Donald Trump), promessas eleitorais não cumpridas (Brexit) e pela influência excessiva de grupos económicos e magnatas (Musk, Bolloré), para dar apenas meia dúzia de exemplos. Somam-se ainda a opacidade institucional, a recorrência de escândalos políticos e a perceção de uma justiça lenta e seletiva. Em Portugal, a magnitude desse fenómeno sistémico tem vindo a desvelar-se em casos como a Operação Marquês, os escândalos BES-GES e EDP, as operações Tutti Frutti e Influencer, ou o episódio Luís Filipe Vieira/Benfica, entre muitos outros. A 43.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção (2024) constitui o nosso pior resultado desde 2012, refletindo uma degradação contínua da confiança nas instituições.
A sucessão de crises e escândalos não só mina a confiança como alimenta um profundo anseio por uma liderança firme. À luz da teoria de Carl Jung, esta reação pode ser interpretada como uma manifestação do inconsciente coletivo, em que arquétipos como a figura do pai, símbolo de autoridade e ordem, moldam a resposta social à instabilidade. Quando tais referências se desmoronam, cresce a tendência para procurar lideranças que prometem restaurar a segurança, mesmo à custa da pluralidade democrática. A história do último século tem mostrado que o descontentamento é terreno fértil para soluções simplistas e líderes autoritários. Quando a instabilidade se prolonga, o desejo de ordem abre caminho à aceitação acrítica.
Em Portugal, a extrema-direita poderia capitalizar o descontentamento generalizado, não fosse a sucessão de escândalos (investigações criminais, dissensões internas e episódios de conduta duvidosa). Ainda assim, o atual panorama favorece essa retórica, sobretudo num país com pouca tradição de coligações. A dificuldade em construir sólidos consensos entre forças moderadas reforça a instabilidade e a perceção de um sistema ineficaz, abrindo espaço a salvadores da pátria. Se no plano legislativo a governabilidade se mantém frágil, no horizonte presidencial ganha força a possibilidade de surgir uma figura que encarne firmeza, rompendo com a impassividade tecnocrática de Cavaco Silva e o populismo mediático de Marcelo Rebelo de Sousa. O caminho parece, assim, desenhado para Gouveia e Melo, embora até às presidenciais de 2026 múltiplos fatores possam ainda redesenhar o tabuleiro político.
A popularidade do almirante, cimentada por uma postura disciplinada, torna-o especialmente apelativo para um eleitorado que rejeita a classe política tradicional e procura referências de comando. Foi uma figura de prestígio pela sua liderança na vacinação contra a COVID-19, impondo disciplina, eficiência e pragmatismo num momento de crise. Com métodos inspirados na estratégia militar, garantiu uma logística que colocou Portugal entre os países com maior taxa de vacinação. A sua comunicação clara e assertiva, aliada a uma postura firme contra o movimento antivacinas, reforçou a imagem de uma autoridade independente e incorruptível. Sem ligações partidárias, destacou-se pelo perfil técnico e operacional, encarnando um ideal de liderança providencial. Num país habituado a esperar por D. Sebastião, há indícios de quem poderá assomar do nevoeiro…