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Os Cristãos não tinham um Calendário Religioso Próprio

O mito que aqui irei abordar é um exemplo paradigmático de algo que suscita em mim uma incompreensão total, seja face às evidências que temos contra o mesmo, seja perante os seus objetivos: mostrar que o Cristianismo no séc. II, mesmo aquando das alterações face ao período apostólico, ainda era um movimento religioso sem fundamentos sólidos como, por exemplo e conforme diz o título deste texto, um “Calendário Religioso Próprio”.

Logo no primeiro século, os cristãos haviam deixado de se focar no Sábado, enquanto dia semanal religioso por excelência, e passado a considerar o Domingo como o dia focal da existência cultual cristã. Mais tarde, já no séc. II e na sua primeira “Apologia” (escrita entre os anos 150 e 160), São Justino Mártir vai reforçar a realidade antes apontada, explicando-a então detalhadamente, no que concerne às suas motivações e expectativas teológicas.

Surge também no século em questão uma calendarização religiosa de orações e jejuns que, sendo inspirada na prática judaica, orientava a que se rezasse três vezes ao dia e que se jejuasse duas vezes por semana (às Quartas e Sextas). Além disto e no que foi uma consolidação de enorme importância, passou a haver uma centralidade anual na Páscoa (ainda celebrada, e como veremos em breve num outro texto, em datas diferentes consoante as zonas geográficas) como a principal data religiosa, cúltica e litúrgica dos fiéis cristãos. Aquela celebração que emprenha o coração dos Batizados (e não só) da Realeza eterna do Espírito e do Amor após o efémero sucesso da violência e do ódio.

É de referir que não temos evidências da Páscoa ser celebrada na era apostólica, razão pela qual alguns movimentos protestantes a rejeitam enquanto exemplo da já mencionada, noutras ocasiões, ilusória “Grande Apostasia” que teria ocorrido na Igreja à medida que se teria aproximado de costumes pagãos. Eis algo que, evidentemente, mostra o desconhecimento que a verdade, estando já presente em gérmen no início do Cristianismo, precisou, como é natural, de maturar e se mostrar a quem seguia em fidelidade a fé dos Apóstolos.

Dito isto e avançando nestas palavras, é de mencionar que no séc. II também já se começava a dar uma significativa importância: a) ao Pentecostes (a celebração da efusão pública do Espírito do Senhor cinquenta dias após a Páscoa, na linha da celebração da entrega da Lei a Moisés cinquenta dias após a passagem, por parte dos israelitas saídos do Egipto, do Mar dos Juncos); b) ao “dia da morte” (na verdade, dia natalis ou “dia de nascimento eterno”) dos mártires; c) e, segundo Clemente de Alexandria, à celebração (ainda incipiente, mas ocorrendo de noite e com a leitura de porções da história da Salvação) de algo semelhante ao que hoje denominamos de “Batismo de Jesus” (atualmente tão desvalorizado teologicamente, no que impede uma mais sólida e fecunda compreensão do sobredito Pentecostes).

E o Natal? Já era celebrado no segundo século? A melhor resposta a esta questão é: sim e com toda a probabilidade, pese embora não o fosse em todos os lugares, nem sempre na mesma data. Mas diga-se que tal celebração, nesse século, já era tida em consideração como ocorrendo a 25 de dezembro, nomeadamente: pela Igreja de Antioquia, por Júlio Africano e pelo “Comentário ao ‘Livro de Daniel’ do complexo conjunto de textos atribuídos a um não menos complexo Santo Hipólito de Roma.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

12 março 2025