Certamente que toda a gente já reflectiu muitas vezes, durante a sua vida, sobre o trabalho. Não só por ser uma ocupação que diz respeito à maioria dos membros da humanidade, como por se tornar, para todos nós, como o meio e o modo mais comum de subsistência. Não sei quais são as estatísticas mundiais sobre a percentagem de homens que trabalha, mas creio que só uma percentagem muito reduzida de seres humanos escapa a esta realidade.
Quando pensamos que uma maioria esmagadora de todos nós exerce uma profissão, podem, por vezes, surgir pensamentos negativos sobre a sua importância para a vida. Esquecemos, por exemplo, que uma desocupação habitual da tarefa laboral pode representar para quem a assume uma fonte de problemas para a sua própria existência, porque a falta de laboriosidade faz com que a ocupação do tempo desemboque, muitas vezes, num horizonte em que, como diria a Santa Teresa de Ávila, a “louca da casa” – a nossa imaginação – comece a funcionar de um modo eruptivo. E por esses caminhos.surgem comportamentos que nada têm a ver com o dia a dia de um cidadão normal. Pelo contrário, conduz-nos por horizontes irreais, habitualmente cativantes e fáceis de idealizar, ainda que não tenham relação real com o nosso dia a dia, nem com as nossas capacidades para efectuar algo de proveitoso.
É, pois, um mundo etéreo, talvez agradável de se abraçar, mas que nos desabitua a enfrentar as realidades do nosso quotidiano, tal como elas são e não com as cores agradáveis e fantasiosas, que nos conduzem e entregam a uma irrealidade negativa e inútil, porque nada têm a ver com o que nós somos e podemos realizar objectivamente.
A imaginação não é uma faculdade negativa e discordante, quando comandada pela vontade recta e o pensamento objectivo. Pelo contrário, torna-se, nessas circunstâncias, uma fonte de iniciativas valiosas, porque não sendo impossíveis de realizar, abrem caminhos e rotas que o dia a dia molengão e repetitivo não é capaz de sugerir e de efectuar.
Mas é necessário não desprezar a realidade e ter consciência correcta do que somos e podemos. Se alguém se conduz somente pela imaginação sem limites é improdutivo e gera em si mesmo um ser incapaz de se conduzir com realismo, quer em relação às suas capacidades, quer ao comportamento de quem vive em sociedade. Na verdade, se só seguirmos o que a “louca da casa” sugerir, apenas seremos felizes se alcançarmos o que ela nos sugere, sem termos em conta de que entre o que é pura imaginação e a verdadeira realidade não há jamais coincidência .
Não sejamos, porém, inimigos dessa capacidade que Deus nos deu para nos auxiliar no nosso caminho de trabalho, de convivência e de salvação. Quantas obras magníficas que vemos à nossa volta - e não falamos apenas do mundo da arte - são um produto elaborado não só pela nossa inteligência e vontade, mas também por essa capacidade de ir mais longe, desde que bem moderada, que é a imaginação. Na vida dos santos – e na própria vida de Jesus! - vemos como funciona esmeradamente. Se ela não existisse e não fosse positiva, o bem que do seu comportamento podemos notar com facilidade, não seria tão acessível e tão chamativo. Por exemplo: se Deus não tivesse imaginação criativa, nós não existiríamos, porque não nos teria feito vir à existência. E se não nos olhasse com um profundo sentido de amor, não nos perdoaria até setenta vezes sete e não teria morrido – para ressuscitar depois, como prometera – numa cruz dolorosa, onde finavam os criminosos.