O que vai ser dito neste texto é um recuperar, de modo alargado, algo que já foi sendo esparsamente dito nesta rubrica. Mas, embora seja um recuperar, não é de todo despiciente, pois é um intento de refutar um mito que visa mostrar que o Cristianismo era, no séc. II, de tal modo insignificante a nível intelectual para a sociedade, que esta, a esse nível, não deu qualquer importância ao mesmo, tendo a fé cristã passado ao lado das grandes correntes de pensamento desse período até ter sido adulterada com a sua suposta total helenização.
Pois bem, a verdade não pode ser mais diferente do já mencionado acerca da indiferença dos intelectuais pagãos face ao Cristianismo no séc. II. Independentemente de as pessoas a quem irei fazer referência terem tido uma ideia clara do que era a fé cristã, muitos foram os intelectuais pagãos que, já nos séc. II, se voltaram – com curiosidade, preocupação, escárnio e até hostilidade – para a realidade da nossa fé.
Desde logo temos, no começo deste século, a correspondência entre Plínio o Jovem (governador da região que hoje é o noroeste da Turquia asiática) e o Imperador Trajano, a respeito do modo de se proceder com os cristãos, revelando a curiosidade do primeiro acerca do que ele denomina de clube associativo supersticioso de uma religião estrangeira. Eis algo que será dito, quase literalmente pelos historiadores, Tácito e Suetónio.
Pouco tempo depois, existe uma citação em segunda mão do filósofo estoico Epicteto que se interroga sobre a filosofia “dos galileus”. Também o Imperador e filósofo estoico Marco Aurélio se refere, nas suas “Meditações”, aos cristãos, tendo tido ainda um papel não pequeno no martírio dos cristãos de Lyon e Vienne em 177, também pelo facto de considerar aqueles um perigo para um Estoicismo que, na ocasião, já estava a desaparecer. Nessa mesma altura, temos a sátira às práticas cristãs (nomeadamente as sócio-caritativas) redigida por Luciano de Samósata e em defesa do Cinismo filosófico posto em causa pelo Cristianismo.
De todos os modos, o mais importante intelectual pagão do séc. II que encarou o Cristianismo, foi o filósofo platónico Celso que, no seu livro “Discurso Verdadeiro”, tentou desacreditar o Cristianismo, não só a partir do que era veiculado comummente contra este, mas partindo das aparentes inconsistências que ele creu encontrar ao ler aqueles textos (hebraicos e gregos) que, já indo formando o cânone bíblico cristão, ele logrou aceder.
Segundo ele, o Cristianismo, enquanto forma de vida, era atrativo apenas para os crédulos e ignorantes, não passando de uma amálgama de religiões anteriores e que, além do amis, não tinha valor por ir contra as ideias de Platão em questões como: a Incarnação de Deus-Filho; a Morte de Jesus; e a Sua Ressurreição Corporal. Mais ainda, pois negando as práticas religiosas pagãs tradicionais, a fé cristã era um perigo para a estabilidade do Império, que, por tal fé estava a ser debilitado na sua coesão social e no seu poder militar. Para ele só havia uma solução para tal situação: ou os cristãos deixavam a sua fé, ou iam para fora do Império.
De tal modo foi importante o esforço de demolição encetado por Celso, que, meio século depois, o grande teólogo cristão Orígenes de Alexandria irá refutar, quase frase por frase, a sobredita obra de tal filósofo discípulo de Platão.