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Cuidados Paliativos

Dois lados da mesma moeda, inseparáveis na existência humana: a vida e a morte.

Ainda assim, se celebramos o início da vida com entusiasmo, fugimos da ideia do seu fim, como se ignorá-lo o tornasse menos real.

Os cuidados paliativos emergem, precisamente, como uma ponte entre esses dois momentos, garantindo que a fase final da vida seja vivida com dignidade, sem sofrimento desnecessário e com respeito pelos valores individuais de cada pessoa.

Falamos de uma abordagem especializada da saúde que visa melhorar a qualidade de vida de doentes que enfrentam doenças graves, progressivas e incuráveis.

Por definição, estes são cuidados que não se limitam aos últimos dias de vida, podendo iniciar-se muito antes, como complemento de outros tratamentos. Pessoas com doenças oncológicas, neurodegenerativas, cardiovasculares ou respiratórias crónicas são algumas das principais beneficiárias, no entanto, qualquer paciente que sofra de uma patologia limitadora pode necessitar deste apoio.

Além do doente, os familiares também são integrados neste acompanhamento, dado o profundo impacto emocional e social.

Importa sublinhar que os direitos dos doentes paliativos estão consagrados na legislação portuguesa e incluem o acesso a tratamento adequado da dor, apoio psicológico e respeito pelas suas vontades, incluindo a recusa de tratamentos desproporcionados, ainda que nem sempre garantidos. Por outro lado, os profissionais de saúde têm o dever de garantir cuidados humanizados, baseados em princípios éticos e científicos, bem como respeitar a autonomia do paciente.

Contudo, na prática, muitos doentes ainda enfrentam dificuldades de acesso a estes serviços, quer por falta de informação, quer pela escassez de respostas disponíveis.

Implementada em 2016, a Estratégia Nacional para os Cuidados Paliativos delineou metas claras para a expansão destes serviços, mas os desafios permanecem atuais.

De acordo com dados recentes, Portugal tem menos de metade das unidades de cuidados paliativos necessárias para responder à procura existente. Há assimetrias regionais graves, com zonas do interior do país praticamente desprovidas de qualquer apoio especializado.

Acresce que a formação em cuidados paliativos, embora obrigatória em alguns cursos de saúde, continua insuficiente para dotar os profissionais das competências necessárias.

Além das limitações estruturais, persiste uma mentalidade que associa cuidados paliativos a um último recurso, quando deveriam ser encarados como parte integrante do percurso terapêutico. O preconceito e a desinformação levam a que muitos doentes e famílias só tenham acesso a estes cuidados nos últimos dias de vida, quando muito sofrimento poderia ter sido evitado se a intervenção tivesse sido tempestiva.

É assim imperativo o reforço do investimento nesta área, garantindo cobertura nacional, melhorando a formação dos profissionais e promovendo campanhas de sensibilização para a população.

Uma sociedade que respeita os seus cidadãos até ao último momento é uma sociedade mais justa, mais humana e mais digna. Afinal, cuidar bem de quem está perto do fim é, em última análise, uma das formas mais nobres de celebrar a vida.

Mário Peixoto

Mário Peixoto

22 fevereiro 2025