A transição do ensino secundário para o ensino superior (cerca de 80% dos estudantes dos cursos científico-humanísticos e cerca de 20% dos cursos profissionais que continuam os seus estudos) representa um desafio significativo para a continuidade da prática desportiva. Após doze anos de ensino de Educação Física obrigatório, os estudantes ingressam num sistema de ensino superior que, não está preparado para estimular e facilitar a manutenção da atividade física regular. Essa lacuna pode comprometer a saúde e o bem-estar da comunidade académica e a nível nacional a longo prazo, tornando urgente a necessidade de reformular o papel do desporto nas Instituições de Ensino Superior.
Para não se perder mais praticantes desportivos quer vertente competitiva ou recreativa e, consolidar o desporto como um projeto mobilizador no ensino superior, é essencial alocar recursos materiais, infraestruturais e humanos devidamente qualificados. Uma gestão estratégica e integrada pode transformar a cultura desportiva académica, promovendo a inclusão, o desenvolvimento pessoal e o sucesso académico. Dessa forma, gestores desportivos, decisores políticos e académicos devem colaborar para definir políticas sustentáveis que garantam um acesso equitativo e estruturado à prática desportiva no ensino superior. Apostar neste setor é fundamental para o desenvolvimento do desporto, não apenas porque nele estão os futuros decisores das políticas sociais e desportivas, mas sobretudo porque se trata de um grupo particularmente vulnerável ao abandono da prática desportiva. Os números e o impacto dessa realidade são altamente significativos, exigindo uma abordagem estratégica e eficaz.
Por outro lado, todos os anos, perdemos uma quantidade significativa de jovens desportistas que, fazendo parte dos escalões de formação dos clubes, acabam por ter poucas oportunidades de progressão devido à existência de apenas uma equipa sénior no mesmo clube. Esse fator leva milhares de jovens a abandonar o desporto competitivo sem grandes opções fora do contexto das federações, representando uma perda considerável de potencial desportivo.
Outra questão crítica é a integração plena e harmoniosa entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado. Apesar dos discursos dos decisores políticos e tecnocratas dos últimos anos que defendem essa articulação, a falta de um quadro regulador geral ou por modalidade cria um vácuo na definição de onde termina a formação escolar e onde começa a participação nas federações. Esse desajuste resulta na perda de recursos e energia diariamente, além de comprometer uma gestão eficiente das instalações desportivas escolares e não escolares. Sem essa articulação eficaz, a base de praticantes, a deteção de talento e a formação especializada tornam-se eventos fortuitos, dependendo os resultados de sucesso nacionais e sobretudo internacionais apenas da existência de treinadores, atletas ou dirigentes excecionais.
Assim, é fundamental uma reforma estrutural que permita uma transição organizada e eficaz da educação física e do desporto escolar para o federado e universitário. Somente através de uma estratégia bem definida e de políticas coerentes poderemos garantir um sistema desportivo sustentável, generalizado, inclusivo e orientado para o desenvolvimento integral dos jovens atletas.
Entorses na formação desportiva
Fernando Parente
20 fevereiro 2025