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Os Cristãos do século segundo eram incultos

Já falei aqui de uma suposta “Grande Apostasia” evocada por grupos pseudo-cristãos para assim justificarem o facto de as suas propostas religiosas serem tão diferentes das cristãs de hoje. Para consubstanciarem essa posição, os proponentes desse mito advogam, por vezes, ter sido a ignorância dos cristãos do séc. II que provocou o começo dessa divergência.

Vimos, no texto anterior desta rubrica, que, pese no Segundo Século já não fosse linear que os cristãos fossem apenas de classes sociais inferiores, isso era, porém, o mais geral. Isto tinha, naturalmente, repercussões a nível da cultura desses cristãos. Na realidade não seria fácil a um pobre aceder a âmbitos de conhecimento médio ou elevado. Mas também aqui é preciso fazer uma veemente ressalva e afirmar que não poucos cristãos eram imensamente cultos.

Neste século, os cristãos começam a enfrentar, intelectualmente, os primeiros pagãos que levaram a sério o Cristianismo como uma “filosofia de vida”, tentando então contestar as crenças da Grande Igreja. Um exemplo disto é Celso, filósofo platonista romano de perfil helénico que tenta refutar, e invetivar contra, algumas posições expostas pelo filósofo, e fundador de uma “escola filosófica” em Roma, Justino de Siquém. Na verdade, este escrevera dois textos, dirigidos aos pagãos em geral, de modo a mostrar a falsidade do paganismo.

Mas Justino não foi caso único, a ponto de se poder dizer que, no séc. II, a literatura cristã por excelência é composta por textos “apologéticos” (palavra que vem de “apologia”, significando “defesa”). Os autores que elaboraram tal literatura são diversos e de grande quilate: Aristides (que escreveu ao Imperador Adriano ou a Antonino Pio); Atenágoras (que se dirigiu ao Imperador Marco Aurélio ou ao seu sucessor Cómodo); e, para não me estender mais, Teófilo de Antioquia e o autor da encantadora “Carta a Diogneto”.

Fizemos, acima, a referência a uma “escola filosófica” fundada por Justino Mártir. Mas essa não foi a mais importante, nem a mais pujante. Para isso devemos mencionar a “Escola Catequética de Alexandria”, fundada por um filósofo da Sicília de nome Panteno. Todavia, quem deu grande impulso a tal escola – presente numa cidade cosmopolita, opulenta e cheia de pessoas cultas nas diferentes correntes filosóficas da altura – foi o brilhante Clemente de Alexandria e, sobretudo, Orígenes de Alexandria – um dos maiores génios do Cristianismo.

Clemente manifesta um sincero apreço por aquilo que de melhor a cultura helénica havia produzido a nível da poesia e da filosofia, serenando, nesse processo, a ansiedade dos cristãos seus contemporâneos que receavam que a filosofia grega dinamitasse intelectualmente o Cristianismo – algo que nunca chegou, no entanto, a ocorrer (também graças a este autor).

Já em Orígenes estão presentes uma grande austeridade de pensamento e uma enorme determinação da vontade, as quais, conjuntamente, deram origem a um temperamento apaixonado e ousado. Começando por expor as grandes ideias filosóficas do seu tempo, Orígenes avançava, na sua catequese a fim de mostrar, numa coleção deveras vasta de obras, que o Cristianismo era o culminar de todas as verdades para que tais ideias apontavam.

Em suma: é certo que, no séc. II, haveria cristãos incultos (e até seriam uma maioria), mas a pujante cultura cristã já se fazia sentir – equiparando-se, senão mesmo suplantando a pagã. 

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

19 fevereiro 2025