O tempo passa… e as realidades existentes em cada um dos períodos desse mesmo tempo, mudam. Querer invetivar contra o Cristianismo dizendo o que é mencionado no título deste texto, é uma falácia que acabou por fabricar o mito que, à luz dos costumes de hoje e até dos do século II, não se prestaria a devida atenção à dignidade do “onde” era celebrado o culto cristão – mormente os importantes sacramentos da iniciação cristã.
Recordemos, desde logo, dois factos. Em primeiro lugar, se se estima que 97% da população do Império Romano fosse pobre no século em questão, não é de admirar que não houvesse verbas suficientes para a edificação de edifícios resplandecentes – algo que não diminui, em nada, o valor do culto a um Deus-Amor que dormiu numa manjedoura e morreu nu, qual bandido mais infame; além do mais, convém recordarmos que o mais belo Templo de Deus é o coração humano.
Em segundo lugar, é importante não esquecer que os cristãos eram vistos com desconfiança, considerados ateus e inimigos do Império (por não seguirem a religião pagã tradicional) e, sobretudo por isto, eram frequentemente perseguidos. Neste contexto toda a discrição possível era aconselhável, sobretudo onde existissem tensões com os governantes imperiais.
É neste enquadramento que devemos, então, admitir que não era raro que as comunidades cristãs vivessem os seus momentos de culto em locais relativamente escondidos das autoridades e dos olhos dos pagãos arrivistas mais virulentos. Eis-nos, em consequência desta situação, perante o dito culto a ser realizado nas catacumbas romanas (já usadas para esse fim no primeiro século) e, sobretudo, em casas particulares de famílias com algumas posses que tinham um espaço suficientemente grande para albergar a congregação – as denominadas “casas da convocada” ou “casas da assembleia”.
É mesmo de vincar que os mais comuns espaços celebrativos cultuais cristãos, até ao fim do séc. II, terão sido, justamente, essas ditas casas particulares. Nelas, uma sala espaçosa, já existente ou preparada para a ocasião, servia de sala de culto, enquanto outras salas mais pequenas eram destinadas a diversas atividades da comunidade: obras de caridade, catequese, estudo, serviços funerários, pequenos batistérios e até alojo para o clero (que ia, enfim, deixando ser de indivíduos itinerantes, para ser de pessoas instaladas num só local).
É de sublinhar que, por mais pobres (ou paupérrimas) que fossem essas “casas da assembleia”, tudo era feito para que, nas mesmas, o culto fosse o mais digno possível, mesmo quando, para se acabar com abusos de membros de seitas gnósticas, se começou: a abandonar a “ágape” (“refeição comunitária partilhada entre cristãos”) – na qual era celebrada a Eucaristia –; e a assumir, em seu lugar e dentro da Eucaristia, aquilo a que, hoje, se apelida de “homilia”.
Posto isto, é justamente no fim deste mesmo século que, tanto quanto sabemos nos dias de hoje, começaram a ser dados os primeiros passos para o surgir do que pode ser denominado de um estilo arquitetónico verdadeiramente cristão que se irá consolidar cerca do séc. VI. Esta será, porém, uma mudança lenta e que seguirá a par e passo a crescente aceitação do Cristianismo como religião e a Igreja como uma realidade institucional com identidade jurídica.