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Com amigos assim…

Numa bela melodia do canadiano Leonard Cohen (1988), na qual o poeta cantor “disserta” sobre a sociedade, a política e a cultura, por entre referências pessoais, o refrão assegura que primeiro tomaremos Manhattan, depois tomaremos Berlim. Indagado posteriormente sobre o significado deste refrão, Leonard Cohen afirmou, porventura até algo provocatoriamente, que era isso mesmo, que o refrão não era mais do que a evocação, da denodada fé dos terroristas na valia das suas ações.

Fosse ainda vivo, talvez Leonard Cohen revirasse os olhos perante o propósito, repetido nestes últimos dias do (brevemente) novo chefe do país vizinho, Donald Trump, que se propõe anexar ou submeter Canadá, de uma ou de outra forma: pela sua inclusão voluntária como 51.º estado dos EUA (sugestão a oscilar entre o irónico e o sério); alternativamente, pelo cerco económico resultante de um aumento exponencial das tarifas comerciais aplicadas nos EUA às importações oriundas deste país (e os EUA são de há muito tempo o primeiro e destacado parceiro comercial do Canadá).

Mas, é sabido, Donald Trump declarou também querer assegurar o controlo da Gronelândia, território que é reconhecido há mais de duzentos anos como parte da Dinamarca (embora com autonomia alargada desde 1979, não sendo mesmo parte da União Europeia). E mais, se necessário pela força, Trump quer retomar o controlo do Canal do Panamá, sobre o qual os EUA reconheceram há 25 anos a soberania plena desde último país (até então, partilhada pelos EUA e Panamá). 

Donald Trump não se furta, assim, a dissimular a sua agenda do “America First” (América primeiro), embora se esteja a esquecer que do isolamento comercial do seu país (decorrente das elevadas tarifas sobre países terceiros) haverá de resultar uma debilitação da pujança económica futura dos EUA.

E tudo isto é música para os ouvidos de Putin. A expansão russa na Ucrânia estará sancionada nos EUA, agora assumidos émulos numa estratégia expansionista. A Carta da ONU (1945), que valida o direito à autodeterminação e independência de todas as Nações, caminha para letra-morta. 

Sobre a NATO, Donald Trump sugere também agora, ou adverte, que o teto a dedicar à defesa pelos Estados-membros já não deve fixar-se nos 2% do PIB (acertados anos atrás, e que muitos países, incluindo Portugal, têm diferido sucessivamente), mas sim nuns robustos 5%. E, claro, como certificado do bom empenho dos países aliados nesta aliança militar, os EUA sugerem e esperam que estes comprem preferencialmente o material bélico de ponta fabricado nos EUA. Preparemo-nos, pois, o mundo, sobretudo a Ocidente, já não gira à volta do Sol, há de girar, queira ou não, à volta dos EUA, antevê o perigoso Trump. 

Parece inevitável que a Europa se robusteça militarmente, face ao contexto desacertado das relações internacionais nos tempos recentes, de que a guerra de agressão russa à Ucrânia, já aqui abordada variadas vezes, é um exemplo. E quando o maior aliado histórico dos países da Europa Ocidental (os EUA) se insinua numa postura tergiversadora, quando não ameaçadora, face à Europa, a situação mostra-se mais sombria, deveras.

De uma forma decidida, a Europa, e designadamente a União Europeia, tem, pois, de pensar em fortalecer-se no respeitante à segurança e integridade territorial, mas por decisão própria, na justa medida dos seus interesses e necessidades, e não forçada por uma agenda de terceiros (os EUA), potencialmente avessa aos interesses europeus.

Mas está difícil, de facto. Denotativo da relativa modorra que tem marcado o crescimento económico da União Europeia desde há um bom par de anos, é notícia recente que a Alemanha (o mais poderoso estado da UE e um dos mais ricos) ostenta hoje um PIB per capita que ultrapassa apenas marginalmente o mesmo indicador no Mississipi, o estado mais pobre dos EUA. É sabido, a pobreza não é amiga da independência ou autonomia ao nível pessoal e o mesmo se passa com os estados ou nações. A Europa está forçada a redefinir-se, a reinventar-se, sob pena de se tornar irrelevante a prazo.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

10 janeiro 2025