É um erro a indiferença. Não se estranhará, por isso, que, contra ela, tantas vezes se manifeste o Papa Francisco. Mais uma vez o fez no domingo passado. Como o jornal digital 7 Margens deu conta, o Papa denunciou “a indiferença dos ‘países privilegiados’ perante as pessoas que, em várias partes do mundo, são vítimas da fome e dos conflitos armados” [1].
Uma das mais conhecidas e vibrantes manifestações contra a indiferença é a canção “Solo le pido a Dios”, de León Gieco:
Só peço a Deus / Que a dor não me seja indiferente / Que a ressequida morte não me encontre / Vazio e só sem ter feito o suficiente // Só peço a Deus / Que o injusto não me seja indiferente / Que não me esbofeteiem a outra face / Depois de uma garra me arranhar esta fronte // Só peço a Deus / Que a guerra não me seja indiferente / É um monstro grande e pisa forte / Toda a pobre inocência da gente // Só peço a Deus / Que o engano não me seja indiferente / Se um traidor pode mais do que uns quantos / Que esses quantos não o esqueçam facilmente // Só peço a Deus / Que o futuro não seja indiferente / Sem esperança está o que tem que andar / A viver uma cultura diferente.
Foi um momento extraordinário aquele em que León Gieco repetiu esta petição perante o Papa Francisco. Fê-lo no Vaticano, no ano passado, no encerramento de um congresso de um instituto que promove o diálogo inter-religioso. Ao jornal La Nación, o cantor argentino revelou que o Papa gosta da música, a escuta muito e propôs mesmo que fosse incluída no filme Papa Francisco: Um Homem de Palavra, de Wim Wenders, e que uma das melhores coisas que lhe aconteceram foi ter levado ao Vaticano “Solo le pido a Dios” [2]. A canção, afirmou na altura Francisco, é como “uma oração mais universal” [3].
Há várias versões de “Só peço a Deus” e a mais conhecida será a de Mercedes Sosa. A mais recente data de há pouco mais de um ano. É inesquecível. Cantada em espanhol, árabe e hebraico, “Só peço a Deus” juntou, além de León Gieco, o Alma Sufi Ensemble, dirigido por Sami Sebastián, a cantora Nuri Nardelli, membro da ordem sufi Al-Herrari, e o cantor Gastón Saied, em representação da comunidade judaica [4]. Foi um “gesto pela paz no Médio Oriente”. León Gieco reconheceu, na ocasião, que o cântico em comum não iria mudar nada, mas que algo foi feito [5]. O momento, protagonizado por pessoas de diferentes credos, é muito emotivo e, na verdade, nunca se sabe que mudanças fez ou fará emergir.
Não é por falta de canções que a indiferença se instala. No excelente programa Direitos a 33 Rotações, sobre os “Direitos Humanos na Música”, que a Rádio Universitária do Minho emite às quintas-feiras, às 12h35, Miguel Machado recordou recentemente “The great song of indifference”, de Bob Geldof [6]. A canção, que repete constantemente “eu não me importo” ou “eu não quero saber”, é, como Miguel Machado observa, uma denúncia desse individualismo que se vai disseminando, desse “umbiguismo extremo”, que é, de facto, “aquilo que corrói e destrói as sociedades”. Sim, a indiferença abunda. Erich Fried constata-o no poema “O que acontece” [7]:
Aconteceu / e acontece agora como dantes / e continuará sempre a acontecer / se não acontecer nada contra isso // Os inocentes não sabem de nada / porque são demasiado inocentes / e os culpados não sabem de nada / porque são demasiado culpados // Os pobres não dão por isso / porque são demasiado pobres / e os ricos não dão por isso / porque são demasiado ricos // Os estúpidos encolhem os ombros / porque são demasiado estúpidos / e os espertos encolhem os ombros / porque são demasiado espertos // Aos jovens isso não preocupa / porque são demasiado jovens / e aos velhos isso não preocupa / porque são demasiado velhos // Eis por que não acontece nada contra isso / e eis por que razão aconteceu / e acontece agora como dantes / e continuará sempre a acontecer
A indiferença não é um destino. A ocorrência do mal não deve suscitar alheamento. O que acontece pode não acontecer e o que não acontece pode acontecer. Pode não depender de cada um o término das guerras ou a erradicação de toda a miséria do mundo. Mas cada um pode fazer algo para melhorar um pouco seja o que for.
[1] “A indiferença dos ‘países privilegiados’ perante as vítimas da fome e guerras”. 7 Margens, 8 de Dezembro de 2024
[2] Elisabetta Piqué – “En el Vaticano, León Gieco cantó ‘Sólo le pido a Dios’ ante el papa Francisco y más de 100 argentinos”. La Nación, 5 de Maio de 2023
[3] idem
[4] “León Gieco hizo una versión de ‘Solo le pido a Dios’ en castellano, árabe y hebreo, por la paz en Medio Oriente”. La Nación, 24 de Novembro de 2023
[5] https://www.youtube.com/watch?v=TXOUpXKn1NM
[6] https://rum.pt/shows/direitos-a-33-rotacoes
[7] 100 Poemas sem pátria. D. Quixote, 1979