twitter

OS DIAS DA SEMANA Os burros sabem

 


 

 


 


 

Platero é um dos burros mais famosos da literatura do século XX. A notoriedade foi-lhe concedida pelo escritor espanhol Juan Ramón Jiménez que dedicou ao animal o inesquecível Platero e eu, obra com várias edições em Portugal. Na tarde de anteontem, Dia de Todos os Santos, pouco antes das 16h00, na RTP2 (um canal televisivo que não trata os telespectadores como pobres de espírito) eram lidos extractos dessa obra singular.

Se tivesse sido difundida por uma televisão dos Estados Unidos da América, a leitura que homenageava o célebre burro poderia ser considerada como uma recomendação de voto no Partido Democrata. Não porque Platero subscrevesse as políticas dos democratas, mas porque o partido ostenta o símbolo de um burro.

A origem desta representação, como se pode ler no instrutivo site da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) [1], surgiu há quase dois séculos numa campanha presidencial. Quando, em 1828, um opositor lhe chamou “burro”, o candidato Andrew Jackson, em vez de se sentir insultado, destacou as qualidades do animal: “trabalhador, de vontade forte, comprometido com os outros” e garantiu que essas eram qualidades que possuía. Andrew Jackson seria o 7.º Presidente dos Estados Unidos da América e o burro surgiria nos materiais da campanha. Como símbolo partidário, o burro popularizar-se-ia algumas décadas mais tarde e ainda hoje é o símbolo dos democratas.

As consagrações dos burros não escasseiam. No ano passado, nas salas de cinema foi exibido o filme EO, do realizador Jerzy Skolimowski. Vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2022 e candidato, no ano seguinte, ao Óscar de Melhor Filme Internacional, EO – inspirado em Peregrinação Exemplar, filme realizado por Robert Bresson em 1966 – mostra as andanças agradáveis ou desgraçadas de um burro nascido num circo.

As crianças também têm ao dispor um livro recente com uma história que honra os burros. A edição é de Cor de Burro Quando Foge. Manuel Palaio é o autor do texto e Christina Casnellie, das ilustrações. Intitula-se O burro sabe.

Entre tantas homenagens aos burros, não pode ficar excluída a que o francês Francis Jammes lhes presta na “Oração para ir para o paraíso com os burros” [2]:

“Já que terei de ir até Vós, ó meu Deus, fazei / com que seja por um dia onde o campo em flor / há-de brilhar. Desejo, tal como fiz na terra, / escolher um caminho para ir, como me agradar, / ao Paraíso, onde as estrelas estão em pleno dia. / Tomarei o meu bastão e, na grande estrada, / irei e direi aos burros, meus amigos: / ‘Sou Francis Jammes e vou ao Paraíso, / porque na terra do bom Deus não há Inferno.’ / Dir-lhes-ei: ‘Vinde, doces amigos do céu azul, / pobres animais queridos que, num movimento brusco / de orelha, afugentais as moscas impertinentes, as pancadas e as abelhas…’ / / Que eu te apareça no meio destes animais / que muito amo porque baixam a cabeça / docemente e param juntando seus pezinhos / de maneira tão doce e que vos move à piedade. / Chegarei, seguido pelos seus milhares de orelhas, / acompanhado dos que levam nos flancos açafates, / dos que puxam carroças de saltimbancos / ou carruagens de plumas ou folha-de-flandres, / dos que têm sobre o lombo bidões amolgados, / das burras cheias de odres e já trôpegas, / daqueles aos quais se vestem umas calças / por causa das chagas azuladas e gotejantes / que atordoam as moscas em círculos agrupadas. / Meu Deus, faz com que, com estes burros, eu chegue junto a Ti. / Faz com que, na paz, anjos teus nos conduzam / para ribeiras frondosas onde ondulam cerejas / lisas como a carne que ri das jovens mulheres, / e faz com que, reclinado nesta morada das almas, / nas tuas divinas águas, eu seja igual aos burros / que hão-de contemplar sua doce pobreza / na limpidez do amor eterno”.


 


 

[1] https://www.aepga.pt/

[2] Prière pour aller au Paradis avec les ânes. Gallimard, 2002

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

3 novembro 2024