Às vezes há o perdurar de mitos que, pese embora consensualmente se saiba que não expressam a verdade, seja por comodidade, seja por receio das consequências de se poder chocar contra uma enorme “bola de neve” feita de pequenos dados que, no passado, se foram anexando piedosamente a esse mito para o defender.
O mito que voz trago hoje é o da famosa “Carta do Papa Clemente I” – e que, por exiguidade temporal, irá ser o último mito relacionado com o Cristianismo do primeiro século. Já vimos, noutro artigo, que só em sentido indireto poderíamos considerar, do ponto de vista histórico, a São Pedro, seja como o primeiro bispo de Roma, seja como o primeiro Papa.
De facto, só no século V (ou no seguinte) é que surge o uso do termo “Papa” no sentido, característico e específico, que se passou a dar a esta palavra (e que, de alguma forma, perdura até hoje com uma ou outra variante). Donde, e desde logo, somente com muita latitude se pode considerar aquele texto que motiva estas palavras como sendo a obra de um “Papa” que não fosse um mero bispo – com esse “um”, a significar “único” (o que em Roma só tenha surgido na parte final da primeira metade do século II).
Depois, trata-se de um texto que não vem assinado. Aliás: o remetente apresenta-se claramente como «a Igreja (…) em Roma». Será, pois, uma missiva pensada e escrita, quiçá até sinodalmente (mas não no sentido que equivocamente damos hoje a este termo), pelos diversos líderes das distintas comunidades de Roma algures entre o ano 50 e, mais provavelmente, o ano 95 d.C.
Em terceiro lugar, só em meados do século II é que se passa a dizer que a dita carta «[d]a Igreja (…) em Roma» à «Igreja (…) em Corinto» fora escrita por alguém de nome “Clemente”. Daí, e pela ótica dessa época (em que já havia em Roma algo análogo a um só bispo monárquico intitulado, como noutros locais, de “Papa” – no sentido de “pai” –), dera-se, com facilidade, o passo para se atribuir a mencionada missiva a um certo “Papa Clemente”.
Só séculos depois é que, com aquela “bola de neve” já bem volumosa e através de estudos históricos cujos resultados são hoje maioritariamente aceites, se começou a questionar se Clemente fora: 1) bispo de Roma; 2) Papa (quando se passou a chamar aos bispos por esta designação, que mais tarde será somente aplicada, no Ocidente, ao bispo romano); 3) o autor conceptual da carta em apreço.
Assim, fruto desses estudos e não obstante uma sólida tradição (também eclesial), o melhor que podemos dizer é que Clemente foi o redator intermediário (por exemplo, por ser o melhor calígrafo ou o responsável dos assuntos com as demais comunidades) da sensibilidade «[d]a Igreja (…) em Roma» acerca do que se estava então a passar na «Igreja (…) em Corinto».
Em suma: 1) não estaremos ante uma carta de um Papa (embora, e em abono da verdade, quem a escreveu pudesse ser o líder [bispo] de uma das comunidades que formavam «a Igreja (…) de Roma»); 2) o pensamento nela expresso é o de toda «a Igreja (…) em Roma» e não de uma só pessoa; 3) não sabemos, com certeza, o nome de quem a escreveu. Assim, talvez fosse de se investir noutra designação: “Carta da Igreja em Roma à Igreja em Corinto”.