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O Cávado como Novo Pólo de Desenvolvimento


 

Há alguns anos, em conversa com um amigo natural de Peso da Régua recém-chegado a Braga, ouvi-o desabafar: "Gosto de Braga, mas falta-me água, Braga não tem um rio." Não hesitei em responder: "Como assim? Temos o Cávado!"

O concelho de Braga é atravessado pelo rio Cávado ao longo de mais de 15 quilómetros, desde a União de Freguesias de Crespos e Pousada até à Freguesia de Padim da Graça. No total, são sete as freguesias que têm o privilégio de contato com este rio. Contudo, arrisco a dizer que é mais comum um bracarense ter contacto com o Cávado quando atravessa a ponte de Fão, do que ao mergulhar na praia fluvial de Adaúfe ou ao usufruir do parque de merendas de Padim da Graça.

O rio Cávado sempre foi uma fonte de riqueza para a cidade de Braga. As terras férteis nas suas margens, enriquecidas anualmente pelas cheias, permitiram o desenvolvimento de uma agricultura produtiva que sustentou Braga durante séculos. O Mosteiro de Tibães, por exemplo, deve grande parte da sua prosperidade ao acesso privilegiado às margens do rio. Os moinhos de água que pontilham o Cávado substituíram métodos de moagem manuais ou com recurso a animais, libertando recursos fundamentais para o desenvolvimento da economia local. Esta ligação ao rio persiste até aos dias de hoje: diariamente, a Agere capta 32.000 metros cúbicos de água na Ponte do Bico, para abastecer a cidade.

Contudo, nas últimas décadas, com a redução do peso dos setores primário e secundário na economia local, e o consequente crescimento do setor dos serviços, Braga foi-se afastando do Cávado. Salvo algumas iniciativas pontuais das freguesias, a cidade concentrou a sua atividade social e económica no centro, acentuando assimetrias municipais e gerando problemas como congestionamento de tráfego, poluição e aumento do custo de vida – dificuldades que afetam todos os bracarenses.

Os dados dos Censos 2021 refletem esta realidade: enquanto a população da cidade de Braga cresceu 6,52% entre 2011 e 2021, as sete freguesias junto ao Cávado registaram uma diminuição média de 3,3% na sua população. Apenas a União das Freguesias de Merelim (São Pedro) e Frossos (com um crescimento de 3,2%) e a Freguesia de Palmeira (com um aumento de 4,2%) contrariaram esta tendência. Analisando o índice de envelhecimento da população, verifica-se que a média concelhia é de 132, enquanto que, nas freguesias marginais do Cávado, a média é de 168 adultos com mais de 65 anos para cada 100 crianças com menos de 14 anos.

Outras estatísticas poderiam ser analisadas, mas o padrão permanece o mesmo: as disparidades entre estas freguesias e a média bracarense têm vindo a aumentar, indicando uma degradação contínua, pelo menos desde 2011. Os motivos deste êxodo populacional não são difíceis de identificar: procura de empregos mais qualificados (há uma maior concentração de atividade económica nos setores primário e secundário, onde os salários tendem a ser mais baixos), melhor acesso a serviços e infraestruturas, proximidade a escolas (a escola secundária mais próxima de Pousada, por exemplo, fica a 10 km) e disponibilidade de habitação.

Para travar este movimento de assimetrização regional, é essencial criar polos de desenvolvimento descentralizados que ajudem as regiões periféricas a alcançar a média do município, beneficiando toda a região. A zona marginal do Cávado oferece-nos uma oportunidade única para criar um pólo de desenvolvimento que possa competir com qualquer cidade do mundo. Ao focar no rio, poderíamos aliviar a pressão sobre o centro, promover um crescimento mais sustentável, criar empregos e novas oportunidades económicas, atrair investimentos e fomentar a coesão social.

Para transformar o Cávado num novo polo de desenvolvimento, não precisamos de reinventar a roda. Existem inúmeros exemplos de sucesso no mundo, como Bilbao, a poucas horas de distância. Utilizando a cultura e a arquitetura como motores de desenvolvimento – com o Museu Guggenheim como símbolo –, Bilbao atraiu milhões de visitantes, impulsionando o desenvolvimento cultural e económico da cidade. Foram implementadas estratégias de mobilidade sustentável, criados espaços de lazer e desporto, o que aumentou a qualidade de vida e atraiu profissionais qualificados.

Naturalmente, o desenvolvimento e implementação de um plano como este requer a colaboração da sociedade civil, de associações desportivas, sociais e ambientalistas, bem como de entidades públicas e privadas. Como munícipe, gostaria de ver uma marginal do Cávado que não se resumisse a um caminho de terra batida, mas sim um espaço acessível para todos, onde pudéssemos correr, caminhar, andar de bicicleta ou simplesmente passear em segurança e sem constrangimentos. Um espaço cultural com exposições permanentes e temporárias, residências artísticas, onde pudéssemos fugir do lazer habitual em zonas comerciais. Um centro desportivo que promovesse os desportos aquáticos, ajudando atletas a atingir os seus objetivos, e que, em colaboração com as escolas, integrasse modalidades como natação, remo e canoagem nos currículos. Imagino também uma bancada nas margens do rio onde, num sábado de manhã solarengo de novembro, pudéssemos assistir a uma prova de desporto enquanto saboreamos umas castanhas assadas; uma zona de restauração onde pudéssemos tomar um café ao pôr do sol; um espaço de coworking para atrair e fixar trabalhadores qualificados; e um centro de negócios que incentivasse o crescimento de novas empresas. Claro, seriam necessárias também zonas residenciais e comerciais, bem como uma infraestrutura de transportes eficiente para garantir a ligação rápida ao centro da cidade. Não seria uma tarefa fácil, mas se fosse, já estaria feito.

Certamente que não nos faltarão ideias. Não precisamos de copiar o modelo de uma só cidade; podemos encontrar inspiração em muitos exemplos de sucesso.

Mais importante do que copiar é pensar de forma diferente e ambiciosa. Como dizia Mark Twain: "O segredo de ir em frente é começar."



 

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Manuel Miranda

15 setembro 2024