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A intolerância religiosa dos primeiros cristãos

Hoje tratarei de um mito que, quando visto com seriedade, dá flanco a se ter que admitir que tem “algo” de verdade. A saber: a asserção que o Cristianismo, desde logo no primeiro século e depois de ter sido expulso do Judaísmo, era religiosamente intolerante para com as demais religiões. A questão é o sentido dado ao termo “intolerante”, bem como perceber se, sendo o mesmo adequado para classificar as ações dos primeiros cristãos, havia motivos para isso.

O Novo Testamento é absolutamente claro: os cristãos devem amar não só aos demais cristãos, mas a todos, inclusive aqueles que se comportam, para com eles, como inimigos. Mais ainda: os cristãos sempre desejaram dar-se bem com as autoridades (desde que estas não pedissem algo de radicalmente oposto à mensagem de Jesus), pois acreditavam que o respeito por estas era natural ao seu modo de ser.

Ocorre, porém, que os cristãos estavam – e estaremos? – absolutamente convictos da existência de uma verdade objetiva em relação a Deus; e que o Deus revelado, progressivamente desde os mais antigos eventos e palavras do Antigo Testamento até à Sua máxima manifestação em Jesus Cristo, como sendo Pai e Filho e Espírito Santo, era o Deus único e verdadeiro. Assim, consideravam que as demais divindades não poderiam ser verdadeiras.

O motivo para esta constatação é simples: o Judaísmo e, ancorado neste, o Cristianismo têm um fundo histórico inegável que dá origem a uma certa coesão doutrinal, enquanto as demais religiões, com que os primeiros cristãos conviviam, eram manifestamente mitológicas e sem qualquer substrato histórico. Mas não só: se no encarar, professar, viver e anunciar Deus duas (ou mais) religiões têm posições diferentes, contrárias e até contraditórias, ambas podem estar erradas, mas não podem estar corretas em simultâneo.

É certo que os cristãos, vendo na Pessoa de Jesus uma realidade cósmica que tudo abarca, acreditaram, desde muito cedo, que tudo tinha uma semente de verdade (inclusive em termos religiosos), decorrente da ação dessa mesma Pessoa. Mas isto não obstava a que acreditassem que a única religião verdadeira fosse o Cristianismo e que as divindades das demais religiões – inclusive a Imperial Romana que havia chegado à (semi-)”divinização” dos Imperadores – eram fruto de enganos suscitados nas pessoas pelo Maligno.

Ou seja: os cristãos primitivos não aceitavam as demais religiões como verdadeiras, e isso, à luz da sensibilidade do relativismo contemporâneo, pode ser encarado como uma forma de “intolerância”, mas tão-somente se se disser que o mesmo se passa com o dizer-se que 2+2=4. Face a uma verdade objetiva, racional e historicamente autêntica, não se pode ceder. E isto, não por desrespeito por quem pensa de outro modo, mas justamente por amor genuíno para com ele.

Por fim, seja-me permitido deixar claro que a “tolerância” nunca foi uma virtude cristã. A “tolerância” é típica da dimensão dos “mínimos”, enquanto o Cristianismo aspira aos “máximos”. Tal como disse em distintos pontos deste texto, o cristão nunca foi chamado a ser “tolerante”, mas a ser “amante” e “perdoante”, e o amor e o perdão (o “amor máximo”) é incompatível com a exiguidade, a apatia, a mentira, a hipocrisia, a dualidade, etc.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

4 setembro 2024