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Quem se preocupa com os nossos padres?

Se Jesus Cristo – além de «verdadeiro Deus» – é «verdadeiro homem», como é que o padre não haveria de ser humano?

Como tal – ao lado de horizontes infindos –, o padre também é tolhido por limites, também é ferido pelo cansaço, pela sobrecarga de tarefas e reuniões, por um tumulto de preocupações e incompreensões.

Para andarem com Ele (cf. Mc 3, 14), Jesus não chamou «super-homens». Apostou em homens limitados, ornados com virtudes e exposto a imperfeições. 

Deram todos a vida por Cristo, conscientes porém de que só para Deus não há impossíveis (cf. Lc 1, 37).

Ultimamente, tem-se verificado que a um padre quase não se pergunta se – e quando – pode prestar determinado serviço.

Tornou-se habitual aparecerem pessoas com datas e horas marcadas, ficando indispostas se o sacerdote responde que já tem compromissos assumidos para tais horas e datas.

Nem sequer se pondera que o número de padres tem vindo a reduzir-se drasticamente. Quem tem em conta que um padre nunca se reforma? Que trabalha até morrer ou até (mais) não poder?

A rácio entre padres e população altera-se cada vez mais. No século XVIII, havia em Portugal 100 mil padres para 3 milhões de habitantes. Actualmente, o número já não atinge os 4 mil para mais de 10 milhões de residentes.

Como é óbvio, a vitalidade – física e emocional – ressente-se.

Há estudos que documentam que, em média, um padre trabalha 58 horas por semana e entre nove e doze horas por dia.

Não espanta que, com alguma ironia, Gérard Daucourt (que escreveu o sugestivo livro «Sacerdotes Rotos»), recomende aos padres que se tornem devotos de «Nossa Senhora do…Não».

Acontece que ao autor (bispo emérito) muitos reagiram com um pedido: «Diga-me a quem e a que posso dizer “não”».

É muita pressão sobre uma pessoa. A ânsia de a todos atender, mas (ao mesmo tempo) a impossibilidade de a todos chegar podem desencadear um processo de desconstrução pessoal e de desarrumação ministerial.

A certa altura, já é difícil distinguir entre o urgente e o importante, entre o essencial e o insistente. O padre já não consegue fazer a agenda. A agenda é que faz – ou desfaz – o padre.

Por vezes, fica com a impressão de que poucos compreendem que o padre também adoece, também envelhece, também enfraquece. 

E lá fica ele sozinho – diante de Deus – a meditar e a tentar decifrar sobre os desencontros que atravessam o seu caminho.

Como sair daqui? Para Gérard Dacourt, é preciso perceber que não é só o padre que deve ser responsável pela comunidade, pelas suas expectativas. 

A comunidade também se há-de sentir responsável pelo padre, pela sua situação.

É assim que a Igreja se tornará um «lavatório de pés recíproco e contínuo». Não foi o Mestre que nos mandou «lavar os pés UNS aos OUTROS» (Jo 13, 14)? 

Uns já não podem mais. Será que outros não poderão… um pouco mais?

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

3 setembro 2024