É com certeza um hábito actual de muitos portugueses, passarem bastantes horas vendo os programas que a televisão nos oferece das Olimpíadas. Até elas finalizarem, quanto tempo - se fosse contado! - teriam gasto os nossos compatriotas a ver as diferentes competições de Paris?
Apenas recordo um amigo que deixou de se interessar, ou, se quisermos, de abrir tanto o ecrã, porque se sentia insatisfeito com o número “raquítico” de medalhas que os nossos atletas conseguiram até ao momento. Não compreendia - acrescentava - que houvesse tão poucos participantes nacionais que lograssem conseguir uma medalha. E completava o seu raciocínio: “Ao menos, de bronze!” Alguém observou: “Mas dessas já conseguimos duas e, ontem, uma de prata”. Não cedeu na sua sentença: “Isso é muito, muito pouco!”
Independentemente desta posição, é de crer que a emissora portuguesa que transmitiu tantas horas de competições, visse aumentada o seu panorama de telespectadores de um modo notável, em relação com a programação habitual que oferece.
Mas existe outro tipo de atitudes perante tais programas. Há quem não se interesse minimamente por este género de transmissões, preferindo, por exemplo, ler um bom livro ou ver outro género de programas, que nada têm a ver com as Olimpíadas. Alguém se escandalizou no seu emprego quando um colega, enquanto almoçava na própria empresa, confidenciou com singeleza que detestava assistir às transmissões dos jogos olímpicos, porque não achava graça nenhuma. Preferia ver um concerto, um debate político, enfim, tudo excepto competições desportivas. Olharam com desprezo todos os que tinham ouvido esta afirmação. Consideraram-na, além de desagradável, profundamente extemporânea, porque lhes parecia escandaloso e absurdo que alguém, fosse quem fosse, tivesse tanta falta de gosto por estas competições, porque não tinha em conta que ali se encontravam os mais qualificados desportistas em busca de resultados de imensa valia.
Na mesma roda de colegas, um deles comentou que, para si, as Olimpíadas constituíam um enorme desafio à ordem caseira, porque a sua mulher era implacável em relação às horas das refeições. Como não gostava de desporto, considerava indamissível adiantar ou atrasar, principalmente o jantar, por causa de alguma competição. Não admitia qualquer alteração, tanto mais que era a si que competia cozinhar. No entanto, ao fim de alguns dias, não conseguindo da parte do seu marido e dos filhos, todos adolescentes, fazer valer ferreamente a sua autoridade, decidiu que enquanto durassem essas “jogatanas”, prepararia uma espécie de farnel para todos e que o comessem quando quisessem. E acrescentou: “E é assim que viveremos!”
Também um outro apresentou um tipo diferente de soluções. A hora do jantar, ou de qualquer refeição, era “sagrada”. Por isso, se havia alguma competição das Olimpíadas que coincidisse com esses tempos, a solução encontrada foi gravar o programa e vê-lo depois. Certamente que esta solução recebeu muita contestação, sobretudo pela parte do mais velho dos rapazes. Um dia, por exemplo, telefonou à mãe, explicando-lhe que tinha um compromisso com um colega e não iria jantar. Não protestou, porque o seu apego às transmissões desportivas era totalmente nulo. Achou normal e até louvou o filho por a ter avisado atempadamente. No entanto, necessitando de comprar alguns pitéus para a sobremesa, pediu a uma das filhas para ir à confeitaria mais próxima, que tinha também um bom serviço de café. Quando regressou, com a compra feita, disse à mãe com naturalidade que o João - o filho do compromisso - estava no café a ver as Olimpíadas pela televisão.
Enfim: as Olimpíadas não são eternas. Realizam-se apenas de x em x anos e isso é um motivo certamente objectivo para levantar ainda mais o interesse dos seus aficionados, nomeadamente através das transmissões televisivas. Mas muito mais seriam - comentava alguém - se Portugal conseguisse conquistar um número de medalhas muito mais robusto.