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São Paulo, 1.º Apóstolo dos Pagãos?

A maioria das pessoas já ouviu falar de São Paulo. Conhecê-lo, será outra coisa. Entender a sua teologia (sem as “lupas mentais” medievais que macularam a cognição dos grandes reformadores, de Lutero a Calvino), será ainda uma outra e mais difícil. Mas um esboço da sua vida será conhecido: ele foi a pessoa judaico-romana que de perseguidor de cristãos se tornou cristão, divulgador do Cristianismo através de parte da atual Turquia e por grandes cidades gregas, até sido martirizado em Roma ao redor da perseguição de Nero do ano de 64 d.C.

Dito isto, creio que, embora com uma certa razão subjacente para o mesmo, é talvez excessivo o epíteto de “Apóstolo dos Pagãos” ou “Apóstolo dos Gentios” (entenda-se aqui a palavra “apóstolo” como sinónimo, não muito exato, de “missionário”). Na realidade o primeiro registo de uma ação evangelizadora de um dos “apóstolos” junto dos gentios surge com São Pedro. Mais: tudo o que São Paulo realizou inicialmente a respeito do levar, aos pagãos do seu tempo, a imensa alegria de Quem foi Jesus, foi-lhe incutido pelo “apóstolo” São Barnabé.

São Barnabé era membro da comunidade de cristãos de origem cipriota que, já repletos dessa mentalidade, viviam em Antioquia – cidade onde, de modo pejorativo, se chamou aos seguidores de Cristo de “christianós” ou “cristãos” (literalmente “pequenos Cristos”). Apesar de toda a maior aptidão intelectual de São Paulo, aquando da sua primeira viagem missionária, foi São Barnabé quem liderou a generalidade dos procedimentos no decurso da mesma.

Procederes estes, que se alargavam a um considerável leque de circunstâncias. Por exemplo: o que precisariam de levar, por onde circulariam, onde se alojariam em relativa segurança, onde e a quem se dirigiriam, até, entre outros aspetos, o que seria capital falarem – algo muito centrado no anúncio primitivo fundamental (chamado “kerygma”): Jesus é Messias; Jesus viveu somente a fazer o bem; Jesus morreu e ressuscitou; Jesus está Vivo.

Com o tempo, São Paulo e São Barnabé separaram-se devido à aceitação, ou não, de São Marcos os acompanhar na segunda viagem que fizeram, sendo que São Paulo, ao contrário de São Barnabé – bem mais compreensivo e compassivo com as fraquezas humanas –, não queria missionar com quem se manifestara anteriormente fraco e inconstante. Daqui em diante São Paulo passou a agir com outra liberdade na criação e cuidado de comunidades.

Mas não é só devido a isto, que acabei de relatar, que, no meu parecer, se deve o exagero do supracitado epíteto. De facto, na sua extrema maioria, os apóstolos – e em especial os “Doze” (o grupo mais circunscrito de apóstolos) – dirigiram-se a gentios/pagãos. E isto, ainda que, tal como fizera São Paulo – até ser martirizado num período não muito afastado do antes mencionado martírio de São Pedro –, se estabelecessem, primeiramente e no irradiar centrífugo da fé cristã, junto de comunidades com uma significativa presença de pessoas que professavam o judaísmo.

Um judaísmo que – note-se bem – a maioria de apóstolos não rejeitava em absoluto, antes afirmando que Jesus fora a consumação, no amor, de todo o judaísmo. E se destes apóstolos sabemos menos, isso deve-se ao facto dos mesmos, tanto quanto sabemos nos nossos dias, nada terem escrito com o peso e a importância dos textos redigidos ou ditados por São Paulo.


 

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

12 junho 2024