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Carta-aberta a um tal político (dito) ‘católico praticante’



 


 

Ouso escrever a V.ª Ex.cia, se bem que, quando nasceu, já eu era quase padre ordenado.
Desde já lhe digo do respeito como pessoa, mas não como mentor partidário.
Desde que tive oportunidade de votar, sempre o fiz e reiteradamente na mesma formação, de que me escuso dar a conhecer.
Dizem que é ‘católico praticante’ e que até chegou atrasado a uma tomada de posse, como deputado, por ter ido à missa.
Tendo em conta estes aspetos desse ‘seu’ catolicismo, não consigo perceber como concilia o gesto de comunhão, se é que o faz na missa sacramentalmente, com a descomunhão com tantos cidadãos e, porque não dizê-lo, católicos em consonância com as diretrizes do Papa, como Mestre na fé e na disciplina.
Ouso, por isso, citar a mensagem para o 110.º (repare-se no número, com mais de um século) ‘dia mundial dos migrantes e dos refugiados’, que o Papa Francisco nos deu desde finais de janeiro, mas tornada pública por estes dias.
«Deus caminha não só com o seu povo, mas também no seu povo, enquanto Se identifica com os homens e as mulheres que caminham na história – particularmente com os últimos, os pobres, os marginalizados –, prolongando de certo modo o mistério da Encarnação.
Por isso o encontro com o migrante, bem como com cada irmão e irmã que passa necessidade, «é também encontro com Cristo. Disse-o Ele próprio. É Ele – faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente, preso – que bate à nossa porta, pedindo para ser acolhido e assistido» (Homilia na Missa com os participantes no Encontro «Libertos do medo», Sacrofano, 15/II/2019). O Juízo Final narrado por Mateus, no capítulo 25 do seu evangelho, não deixa dúvidas: «era peregrino e recolhestes-Me» (25, 35); e, ainda, «em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (25, 40). Então cada encontro ao longo do caminho constitui uma oportunidade para encontrar o Senhor, revelando-se uma ocasião rica de salvação, porque na irmã ou irmão necessitado da nossa ajuda está presente Jesus. Neste sentido, os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto do Senhor (cf. Mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres, 17/XI/2019)».

- Ao ler isto senti que não podemos harmonizar, de forma leviana, missa com juízo final... este será sobre o que fizemos aos outros. Que não podemos dizer-nos em comunhão com Cristo, se desprezamos os outros; se nos entretemos com celebrações religiosas, mas excluímos os mais fragilizados da nossa sociedade… sejam ou não crentes: são. antes de tudo, pessoas com dignidade como qualquer um de nós! Não roçará quase o sacrilégio a pretensão de comungar o pão-eucarístico e não estar em comunhão com os outros que são d’Ele expressão de comunhão?

- Neste tempo em que devemos ser testemunhas de fé pela vida, não entendo que se possa falar de justiça sem a praticar. Não me refiro à justiça das leis humanas - de que V.ª Ex.cia é paladino e arauto - mas das leis divinas, que só podem ser servidas por quem está centrado na dignidade da pessoa humana e não nas aleivosias ideológicas, por exemplo. Não faremos menos bom serviço aos outros, mesmo politicamente, quando nos fixamos na tez da pele ou nas diferenças culturais e linguísticas?

- Certamente não se deixará impressionar com estas letras, dado que tem outros areópagos para ser fazer ouvir e ver, mas seria de bom serviço a Deus, à Igreja e à Pátria, que, quem se diz cristão, possa credibilizar o que fala com as tomadas de posição de acordo com os valores e critérios cristãos-católicos…básicos!

A bem de todos e com todos, me subscrevo,  


 


 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

10 junho 2024