Faleceu, no passado dia 1, Frei Lopes Morgado, “homem, religioso e sacerdote de fortes convicções de fé e fibra inquebrantável, na sequência de São Francisco de Assis, cujo ideal abraçou com entusiasmo” (comunicado dos Padres Capuchinhos, no dia da sua morte). Por se tratar de “uma figura maior do apostolado bíblico em Portugal” (Tony Neves), impõe-se reconhecer-lhe o mérito e deixar-lhe uma palavra póstuma de gratidão pelo muito que fez em prol da sua Ordem Religiosa, em geral, e da Palavra de Deus, em particular.
José Joaquim Lopes da Silva Morgado nasceu em Areias de Vilar (Barcelos), no dia 23 de abril de 1938. A 5 de setembro de 1949, entrou no Seminário Seráfico (Gondomar) e, no dia 2 de agosto de 1953, em Barcelos, tomou o hábito capuchinho, para dar início ao noviciado, recebendo o nome de Frei Agostinho de Vilar. Fez os votos temporários a 15 de agosto de 1954 e a profissão perpétua a 24 de abril de 1956. Foi ordenado sacerdote no dia 5 de agosto de 1962, na Sé Catedral do Porto.
A sua intensa atividade enquanto sacerdote repartiu-se entre a escrita poética e teológico-pastoral, a colaboração com os meios de comunicação social e a participação em Cursos de Dinamização Bíblica, de que as Semanas Bíblicas, pelos Capuchinhos promovidas em Fátima, Gondomar, Amial (Porto) e Barcelos, são o expoente. Em todas estas atividades, o Frei Lopes Morgado pautou-se pela competência de quem estuda e pela criatividade de quem, após a leitura orante das realidades, procura iluminar a existência humana e dar a melhor resposta às questões que lhe são colocadas.
Começamos por destacar, de forma aleatória, algumas das suas obras, em prosa, no âmbito da Teologia Pastoral: Via sacra de Cristo e outras vias (não) sacras (1977); As mais belas orações da Bíblia (1977); Mateus – reino, palavra, comunidades (1986); Quem ouvir que entenda – parábolas dum novo reino (1986); Marcos – este Homem era Deus (1987); Lucas – e paz na terra (1988); Dia da Bíblia – sugestões e apoios (1995); Jubileu 2000 – dez cadernos (1996-2001); Em minha memória (2004); Frei Inácio de Vegas, o profeta da Palavra (2005); 40 Semanas Bíblicas Nacionais (2012); ABeCedário do Espírito Santo (2017). A coroar tão vasta obra, impõe-se destacar o resultado da investigação que fez sobre o Apostolado Bíblico dos Capuchinhos de Portugal – 70 anos: 1951-2021 (2022). Também em prosa, mas no âmbito do teatro, publicou Um Filho nos foi dado – 5 Autos de Natal (1989).
Na obra poética, o destaque vai para Agora que nasci – poema do natal intemporal (1976); De raiz – poemas (1983); Ao encontro do Sol – poemOrações (1998); Maria! Orações a Nossa Senhora (2017). É de acrescentar a tudo isto alguns textos breves que foram musicados por compositores como António Cartageno, António Azevedo Oliveira e Acílio Mendes, assim como a sua colaboração na tradução da Bíblia publicada pela Difusora Bíblica, aquando da celebração dos 2000 anos da Encarnação.
No que se refere à sua participação nos meios de comunicação social, colaborou com diversas revistas, mas o destaque vai claramente para a Revista Bíblica, de que foi chefe de redação, por diversas vezes, e diretor, ao longo de 25 anos, para além de colaborador regular com artigos mais elaborados ou pequenos apontamentos. Colaborou também no Secretariado Nacional das Comunicações Sociais e em diversos órgãos de comunicação: em outubro de 1969, iniciou na Renascença o programa semanal Maranatha; em 1970, foi escolhido para a equipa de sacerdotes que celebrava Missa na RTP; em dezembro de 1973, começou na Rádio Renascença o programa diário Palavra do Dia.
Para além disso, são de destacar a sua alma de artista e a sua criatividade, ao serviço do anúncio e da melhor compreensão da Palavra de Deus, assim como a sua veia de colecionador. Partiu do Frei Lopes Morgado a ideia de, na casa dos Capuchinhos, em Fátima, criar um jardim bíblico, com as plantas e as árvores da Bíblia. Depois de maturada a ideia, o jardim foi concretizado com a ajuda do arquiteto paisagista Miguel Velho da Palma, vindo a ser inaugurado no dia 16 de junho de 2003. Sua foi também a ideia de aí criar um espaço museológico, que conta com uma impressionante coleção de 1300 presépios. Inaugurado no dia 4 de janeiro de 2020, foi-lhe dado o sugestivo nome de Evangelho da Vida.
Tive a sorte, a honra e a graça de ter conhecido o Frei Lopes Morgado e de algumas vezes ter privado com ele. Guardo a grata memória de um homem bom, de um sacerdote exemplar e de um amigo indefetível. De uma humanidade inquestionável e de uma fé inquebrantável, a sua vida preenchida colmata a sensação de vazio que a sua morte deixa entre nós. A Igreja, em geral, e a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, em particular, ficaram mais pobres, mas o seu legado deixa-nos a todos muito mais ricos. Deus o acolha onde o seu coração sempre esteve.