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“Lembra-te que és pó...”

 

 

 

 


“Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” é uma das frases que, no início da Quaresma, acompanha o rito da imposição das cinzas1. Apesar de não coincidirem de todo (a cinza é pó, mas nem todo o pó é cinza), são, na Sagrada Escritura, realidades muito próximas.

O texto bíblico começa por dizer que “Deus formou o homem do pó da terra” (Gn 2, 7) e, logo de seguida, coloca Deus a dizer a Adão: “tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). O livro do Eclesiastes repete a ideia, quando afirma: “Todos saíram do pó e ao pó hão de voltar todos” (3, 20). E na mesma linha se exprime o Salmista: “Na verdade, Ele sabe de que somos formados; não se esquece de que somos pó da terra” (Sl 103, 14). Ao falar do que todos esperam de Deus, conclui: “Se deles escondes o rosto, ficam perturbados; se lhes tiras o alento, morrem e voltam ao pó donde saíram” (104, 29). Não apenas sinal da nossa existência, o pó aponta também para os seus limites: “Quando ela se apaga, o nosso corpo voltará ao pó e o nosso espírito se dissolverá como o ar subtil” (Sb 2, 3).

Se o pó designa a nossa condição, a montante e a jusante, a cinza pode significar tristeza profunda pela humilhação sofrida: violentada por seu irmão Amnon, “Tamar cobriu a cabeça de cinza, rasgou a túnica e deitando as mãos à cabeça, afastou-se aos gritos2” (2 Sm 13, 19). Pode também demonstrar desolação e ruína: “Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou as vestes, vestiu-se de saco e cinza3 e percorreu a cidade, dando fortes gemidos de dor. (...) Em todas as províncias, em toda a parte onde chegou a ordem do rei e o seu édito, houve grande desolação entre os judeus. Jejuaram, choraram e fizeram lamentações, e muitos deitavam-se sobre a cinza, vestidos de saco” (Est 4, 1.3). 

A cinza exprime sobretudo o arrependimento e a conversão: Job, que “pegou num caco de telha para se raspar com ele e ficava sentado sobre a cinza” (Jb 2, 8), afirma: “retrato-me e faço penitência, cobrindo-me de pó e de cinza” (Jb 42, 6). À pregação de Jonas, “os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor. A notícia chegou ao conhecimento do rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou o seu manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (Jn 3, 5-6). Jesus evoca o sinal de Jonas (Mt 12, 38-41; Lc 11, 29-30) e, na lamentação sobre as cidades do lago, fala explicitamente de saco e de cinza (Mt 11, 21; Lc 10, 13). Nesse sentido vai também o apelo de Jeremias: “Ó filha do meu povo, veste-te de luto, revolve-te nas cinzas” (6, 26). 

A cinza é também sinal de humildade (Gn 18, 27: “Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei”) e da fragilidade da condição humana (Jb 30, 19: “Atirou comigo para a lama e fiquei semelhante ao pó e à cinza”). E, numa crítica à soberba e à arrogância, Ben Sirá questiona: “Porque se ensoberbece quem é terra e cinza, quem, ainda vivo, tem os intestinos cheios de podridão?” (10, 9).

 O rito da imposição das cinzas, como tantos outros, corre o risco de se tornar vazio e formal. É para isso que o profeta Isaías adverte, quando pergunta: “Acaso é esse o jejum que me agrada, no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza? Podeis chamar a isto jejum e dia agradável ao Senhor?” (58, 5). Mais do que um mero rito, a imposição das cinzas convida-nos ao reconhecimento da nossa condição de pecadores e exorta-nos à luta contra o pecado, confiados na misericórdia de Deus.

 


1 É por isso que este dia se designa Quarta-feira de Cinzas. Nos primeiros séculos do cristianismo, os cristãos que tinham praticado pecados públicos expiavam-nos, durante a Quaresma. No início deste tempo litúrgico, recebiam as cinzas sobre a cabeça, em sinal de humildade, e, de seguida, eram acompanhados à porta da Igreja. Até à Quinta-feira Santa, não participavam nas assembleias, mas permaneciam no átrio, em sinal de penitência. Por volta do século VIII, as pessoas que estavam para morrer eram deitadas no chão, sobre um tecido rude, e nelas se lançava pó. O sacerdote, aspergindo-as com água benta, dizia: “Lembra-te, ó criatura, que és pó e nele te hás de tornar” (Gn 3, 19). Assumindo progressivamente uma dimensão espiritual, este rito passou a significar arrependimento e penitência. As cinzas utilizadas no início da Quaresma são obtidas com a queima do que sobra das palmas e ramos de oliveira benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.
2 Rasgar a veste superior, desde o pescoço até à cintura, desalinhar o cabelo e gritar eram sinais de dor, luto, indignação, escândalo ou repulsa (cfr. Gn 37, 29.34; Nm 14, 6; 2 Sm 13, 19). 
3 Com o termo “saco”, a Escritura refere um material grosso, geralmente feito de pelo de cabra, de uso muito desconfortável.

P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia

12 fevereiro 2024