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QUEM MANDA: O HOMEM OU A MULHER?

“Isto é de mandar um cidadão para o hospital”! Esta expressão dizia alguém, num café citadino, em voz alta. Não penso que quisesse fazer-se ouvir. Estava na verdade preocupado. Não entendi imediatamente porquê. Mas a exuberância dos seus gestos e, sobretudo, o calibre da sua voz, chegou a todos os recantos desse lugar onde, pacificamente, eu saboreava aquele líquido preto que tanto aprecio.

 


 Entendi a sua preocupação, quando gritou à mulher - à sua esposa, concluí depois - que considerava que ele estava a exorbitar na voz, nos gestos e também nas razões da sua atitude.

 


 “Parece-te pouco? Duas guerras em curso e a agora o Costa demite-se!” A esposa, pausadamente, pensava, no seu entender, que eram coisas diferentes. Além de que, não percebia muito bem os motivos de tanta inquietação. As guerras, dizia, sim, que são realidades mais complicadas, que levam à morte diária de muitas pessoas, além da destruição de tantos edifícios, que vão exigir, no futuro, uma recuperação difícil e cara. “Destruir, observava, é muito fácil, mas pôr tudo direito de novo leva o seu tempo e custa muito dinheiro”.

 


 O marido concordou. Mas observava que tudo junto - as guerras mais a crise política - dava-lhe cabo dos nervos! E chamou o empregado: “Traga-me “Água das Pedras”. A mulher ficou assombrada. E perguntou-lhe: “Sentes-te mal? Estás doente?” Ele apenas disse: “A ver se me acalmo um pouco!” Ela insistiu: “Não me digas que não vais tomar um café?”

 


 O pedido feito chegou à mesa do casal. A senhora, com cara espantada, viu o marido deixar-se servir no copo apropriado por aquele líquido transparente, com muitas bolinhas no meio - assim lhe parecia - típicas daquelas águas. Não resistiu, porém, e pediu: “Traga dois cafés”. O marido protestou peremptoriamente. “Só um, que eu não quero!” O empregado perguntou: “Afinal, são dois ou um só?” “Dois”, disse a mulher. “Nada disso! Só um!”, ripostou o marido. “Portanto, só um...” “Dois”, insistiu ela de novo com veemência. “Não sejas teimosa: só um!”, ripostou o senhor, perante o olhar impaciente do empregado. Este dirigiu-se ao balcão e o casal continuou o seu diálogo, mantendo cada um o seu ponto de vista, tanto em relação à situação bélica e política, como ao número de cafés que o moço devia trazer. Não se entendiam, dando razões apaixonadas sobre o ponto de vista de cada um. A discórdia fazia-os elevar a voz. Por isso, toda a gente que se encontrava no café se apercebeu das razões do desentendimento. 

 


 Quando este começou, as pessoas sentiram-se incomodadas, porque interrompeu a conversa de cada mesa. Mas, a pouco e pouco, o frenesim do casal como que contagiou a atenção e o interesse de quem assistia àquela pequena discórdia, levando-os a concentrar a atenção no desfecho da situação. Afinal, seriam dois cafés que o empregado traria, ou só um como queria o marido? A resolução desta problemática depressa apareceu resolvida, porque a mulher, aproveitando um momento de maior ardor do seu cara metade, e sem que este o notasse, chamou com um gesto o empregado e, com a mão subida, ergueu dois dedos para confirmar que seriam dois os cafés e não só um.

 


 O marido continuou a afirmar que não queria tomar um café, porque com a “nervoseira” com que andava, só aguentava as “Águas das Pedras”. Além de que estas lhes amainavam as digestões, que, pela mesma causa, o traziam bastante desregrado e mal disposto.

 


 O empregado trouxe os cafés para a mesa. O marido protestou com ardor. Mas o seu olhar fixou-se nas duas chávenas. “Não vou tomar café! É um desperdício o que pediste!” A mulher não deu importância ao que ele dizia. Pegou numa das chávenas, verteu nela uma pequena dose de açúcar, apesar de o seu marido insistir. “Não vou tomar café, já te disse!” Continuou a sua tarefa: mexeu o açúcar com calma, aprontou tudo com rigor. Depois, fez o mesmo com a outra chávena. E observou: “Se não tomas tu, eu encarrego-me dos dois com todo o gosto”. O marido fitou-a com um aspecto nervoso. Ela começou a beber uma das chávenas. A outra aproximou-a dele e disse: “Já tem açúcar, como tu gostas...” Ele protestou, mas à medida que a mulher lhe punha o café diante dos olhos, não resistiu: “És teimosa como sempre...” E bebeu o seu café, saboreando-o com todo o gosto e murmurando entre dentes: “E ainda dizem que são os homens que mandam neste mundo...!” Ela perguntou-lhe: “Está bom?” “Sim, sim, muito saboroso e agradável. Está a saber-me bastante bem...”

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

11 novembro 2023