“Somos quem somos e somos como somos”. Alguém afirmava esta frase com a convicção de que, em relação ao género humano, era a melhor definição.
Esta afirmação é certamente realista, mas incompleta e negativa, quando estabelece uma espécie de imobilidade e incapacidade de o nosso modo de ser realizar muitas coisas que devíamos fazer.
Vejamos: há quem seja profundamente emotivo e há quem pareça um bocado de gelo ou de pedra dura perante um acontecimento que presencia. Mas nem num caso nem no outro, o carácter psicológico os priva de cumprir as suas obrigações ou de enfrentar a realidade com uma resposta adequada.
O modo de ser não é, portanto, uma espécie de prisão limitativa da liberdade ou da execução do que o dever exige.
Certamente que o facto de “sermos assim” pode ocasionar que alguém tenha mais dificuldade ou facilidade de reagir de forma acertada a um desafio que a vida nos lança. Compreendemos que uma pessoa que se emociona com facilidade se comova perante uma cena do dia a dia cheia de contornos sentimentais e que outra, cerebral e fria, a encare com uma distância e serenidade que até nos suscite uma crítica pelo seu proceder.
Num caso e noutro, as reacções, tão diversas, são capazes suscitar respostas muito distintas. Mas estas serão tanto mais justas quanto levarem os seus protagonistas a fazer o que o dever exige.
Um emotivo pode, efectivamente, deixar-se levar por uma espécie de onda sentimentalista que o leve a perder o sentido da realidade e do bom senso, pois transforma a sua resposta num exagero de afectos e turva a execução do que era devido, dando excessiva relevância ao que de facto não é importante nem objectivo. Por isso causa admiração num observador equilibrado e este considera, com razão, o que viu fazer como inadequado. Mas toda a chama da sua emotividade pode ajudá-lo a encarar uma cena, aparentemente inócua e sem relevo, numa circunstância que requer de si empenhamento, porque o seu auxílio pode ser útil na resolução dum problema. Nesta situação, quem presencia a sua conduta terá de reconhecer o acerto do seu concurso.
Da mesma forma, se presencia a reacção de quem é o invés do caso acabado de expor, tem de tomar igual cuidado na sua observação, não se deixando guiar, nos seus juízos, por uma aparente falta de empenho ou de demasiada frieza no modo como actua. O importante é que a sua contribuição cumpra um dever de auxílio eficaz. É óbvio, também, que não poderá deixar de avaliar negativamente tal sujeito, se este decide desinteressar-se de alguma coisa que requer colaboração da sua parte.
Enfim, como diz o povo, “feitios são feitios”. Certo, mas o dever é uma realidade moral que o ser humano não pode menosprezar. A sua realização é uma exigência universal para nós. Pode ser mais fácil ou mais eficaz no modo como o executamos, mas nunca pô-lo de lado, como se fosse uma espécie de opção de livre escolha que não supusesse o nosso concurso.
E lembre-se também que Deus não esquece o nosso esforço. Por isso, sempre nos anima a fazer o bem. Ou seja, a cumprir o verdadeiro dever. E, para nosso bem, respeitando sempre a liberdade com que nos criou, concede-nos a sua graça, que é uma ajuda algo calada e discreta, mas sempre eficaz, pois, como nos ensina S. Tomás de Aquino, a graça não destrói a natureza. Pelo contrário, completa-a e aperfeiçoa-a.