Assinala-se, na próxima quinta-feira, 9 de novembro, o Dia Internacional contra o Fascismo e o Antissemitismo. Instituído pelo Parlamento Europeu, com o objetivo de lutar contra o racismo e a xenofobia, na União Europeia, este dia faz memória daquela fatídica noite, de 9 para 10 de novembro de 1938, em que se espoletou, na Alemanha e na Áustria, a perseguição aos judeus. Dezenas deles foram mortos, entre 30 e 35 mil foram detidos e enviados para os campos de concentração, as suas escolas e casas foram pilhadas e destruídas, acontecendo o mesmo a mais de mil sinagogas (só em Viena, o número ascendeu a 95!). Foram também destruídos diversos hospitais judaicos, muitos dos seus cemitérios foram profanados e mais de 7000 lojas de judeus foram pilhadas e destruídas. Incontáveis pedaços de vidros partidos encheram as ruas das cidades, o que fez com que esta passasse a ser conhecida como a Kristallnacht (Noite de Cristal ou, no plural, Noite dos Cristais).
O pretexto para estes ataques foi o assassinato, no dia 7 de novembro, de Ernst von Rath, secretário da embaixada alemã, em Paris. O autor do crime foi o jovem polaco, de origem judaica, Herschel Grynspan, nascido na Alemanha, mas a viver em Paris. Protestava assim contra a expulsão dos judeus polacos que viviam em Hanover, acontecida na noite de 28 do mês anterior. A perseguição aos judeus havia começado já em 1935, com as famigeradas Leis de Nuremberg que, sob o discurso de defesa da “honra e do sangue alemão”, determinavam o antissemitismo na legislação e na vida da sociedade alemã.
Estavam a ser criadas as condições para a Solução Final da Questão Judaica (Endlösung der Judenfrage), criada pelos nazis. Consistia no assassinato em massa dos judeus europeus, cuidadosamente deliberado e planeado, num inequívoco processo de genocídio, ocorrido entre 1941 e 1945, por nós conhecido como Holocausto e pelos judeus como Shoah (“catástrofe”). Os campos de concentração, com os seus museus e memoriais, os testemunhos de quem por lá passou (alguns deles ainda vivos), os filmes e a vasta bibliografia que sobre o assunto foram surgindo não podem ser ignorados, como se nada tivesse existido.
No Dia Internacional contra o Fascismo e o Antissemitismo, é importante reforçar a necessidade de combater a ignorância e consciencializar os povos acerca das formas de manipulação e controle que os regimes fascistas exercem. O fascismo e o antissemitismo não podem ser esquecidos ou relativizados. É essencial que não fechemos os olhos para o que está a acontecer e saibamos agir de forma diferente. O apelo é tanto mais urgente e pertinente quanto mais nos apercebemos de que, a propósito do conflito entre Israel e o Hamas, têm sido desenhadas, um pouco por toda a Europa, nos prédios e monumentos públicos, cruzes suásticas (adotadas como símbolos do nazismo) e, ao mesmo tempo, têm sido escritas frases como esta: “Aqui há judeus”.
Oitenta e cinco anos depois da Noite de Cristal, regista-se, em diversas partes do mundo e até na Europa, fenómenos de exaltação do líder forte, de racismo e xenofobia, de ataque à racionalidade, a par de discursos que exploram os sentimentos de medo e frustração coletiva, exacerbados pela violência, a repressão e a propaganda. Parece que não se aprendeu a lição do passado! É por isso que se torna cada vez mais necessário este Dia Internacional e se exige uma atenção redobrada, a fim de que a tragédia do Holocausto e outras semelhantes não mais se repitam.
Contra o fascismo e o antissemitismo crescentes, só há um caminho: deixar de lado o ódio e o antagonismo e promover a linguagem do diálogo e da abertura ao outro. Como dizia o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no texto com que convocou e motivou a celebração deste dia, em 2021: “Às trincheiras, respondamos com pontes. À divisão, respondamos com a racionalidade do diálogo e da conciliação – em memória das chagas da nossa história comum, em memória do exemplo (...) de Aristides de Sousa Mendes, e em nome de um futuro melhor, mais aberto, mais inclusivo, mais próspero, mais humano, para todos”.