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“Glasnost”, quando? (2)

1. "Durante 70 anos, na era soviética, foi-nos dito para não pensarmos demasiado, excepto em matemática. A partir daí, os russos não pensavam, pelo menos sobre temas abstractos. Quando cheguei a França, o mais difícil era fazer escolhas. Para alguém como eu, que cresceu entre o mau e o pior, o que significava ‘podes fazer o que quiseres’? Não fazia a mínima ideia" – disse Tania Rakhmanova em entrevista (ver artigo anterior). Após a “glasnot” de Gorbachev, a Rússia voltou a retroceder: um viajante da década de 1930, que chegue hoje a Moscovo, notará similitudes com a Alemanha nazista da época: o símbolo Z, a propaganda dos ‘media’, a opressão violenta dos opositores; ao contrário da Alemanha, com os julgamentos de Nuremberga, a União Soviética nunca expurgou os crimes tenebrosos cometidos por Lenine e Estaline (pouco atenuados com os sucessores); ora, esta é uma das lições dos tempos: quando os esgotos da história não são drenados, voltam a empestar.

 


2. Que perspectivas? O despotismo que ressurgiu na Rússia também a corrói – um Estado pútrido, sociedade civil exangue, novas vagas de emigração (actualmente, já supera a de 1917), pobreza a alastrar-se. Será o colapso da Federação Russa? Muitos falam em desintegração pelas tensões existentes, com a previsível separação de várias das Repúblicas da Federação. Há também o risco de prevalecer da linha dura anti-ocidental de inflexíveis políticos e oligarcas russos, ou do sector mais putinista representado por Medvedev. Conforme opina Oreshkin (lidera o grupo de pesquisa política ‘Mercator’, em Moscovo), "é quase certo que veríamos um regime mais autoritário do que o de Putin chegar ao poder. Dados os actuais problemas económicos da Rússia, as sanções ocidentais e a guerra na Ucrânia, possivelmente, até uma junta militar”. Assim, a vitória da Ucrânia nesta guerra será benéfica para toda a gente, inclusive para a Rússia; pela história sabemos que regimes fascistas que perdem guerras coloniais sofrem grandes transformações internas, que geralmente levam à democratização.

 


3. Se é indubitável que a melhor via para a paz na região, e no mundo, seria a redemocratização, porém 70 anos de comunismo e 23 de putinismo consolidaram o absolutismo czarista, encorajado pela Igreja Ortodoxa, sendo Putin o dirigente do Kremlin há mais tempo no poder desde Estaline, que não teve pejo em declarar (Outubro 2015): "Há 50 anos, as ruas de Leninegrado ensinaram-me uma regra: se uma luta for inevitável, devemos ser nós a dar o primeiro soco". De facto, a invasão, em1999-2000, contra os rebeldes separatistas (prometendo eliminá-los "até nas retretes") numa Chechénia devastada; em 2008, forças russas invadiram a Geórgia tomando duas regiões (Abkhazia e Ossétia do Sul); e, ao lado de Bashar Al Assad, arrasou cidades na Síria (final de Setembro de 2015 a Dezembro 2017), tendo razão quem disse: "Se tivessem travado Putin na Síria não tinha havido invasão da Ucrânia"; desde 2014, anexou total ou parcialmente cinco regiões da Ucrânia, do Donbass (nordeste) à península da Crimeia (sul), que prosseguiu com a guerra actual.

 


4. Há quem defenda que o confronto entre “Ocidente” e “Leste” nunca foi tanto um conflito entre o capitalismo e o comunismo, ou entre a economia de mercado e a economia planificada, mas entre o despotismo e a democracia; actualmente, a Ucrânia é a arena por onde passa a linha da frente. Os que, na Conferência de Yalta, facilmente anuíram em abandonar metade da Europa ao despotismo soviético, para comprarem meio século de paz e de bem-estar, não compreendem nem os riscos nem o alcance desta guerra; e a esses juntam-se os que não contrariaram a dependência do abastecimento energético russo, os que forneciam à Rússia tecnologias de ponta para ajudar a modernizar o país, os que parecem indiferentes às interferência nos nossos processos eleitorais, contemporizam com o combate às nossas democracias e à União Europeia. Se o Ocidente não for capaz, hoje, de enfrentar o ditador russo na Ucrânia, porventura terá que confrontá-lo, amanhã, na sua terra!

 


5. O antigo primeiro-ministro lituano, Andrius Kubilius, depois eurodeputado, acredita que a mudança de regime na Rússia pode acontecer a qualquer momento, até mesmo antes de um cessar-fogo na Ucrânia que leve a um processo de paz (poderá demorar). A verdade é que as reuniões de dissidentes do regime têm vindo a ocorrer em várias locais; cerca de 70 representantes do movimento da oposição e antiguerra reuniram-se em Berlim (Alemanha), em Abril, para elaborar uma declaração, que foi já assinada por 30 mil russos, em defesa do fim da guerra. Por sua vez, Lev Ponomarev, Gennadij Gudkov, Elena Kotënočkina, Oleq Elančik, já propuseram um “Programa de redemocratização da Rússia”. Quem afirma que “a democracia não é para os russos” é mais a geração idosa, que nunca a vivenciou; já os jovens russos estão sedentos de liberdade, democracia, justiça e prosperidade.

 


O autor não escreve segundo o denominado “acordo ortográfico”

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

26 setembro 2023