twitter

Pecados do jornalismo

1. Em 26 de agosto o Papa Francisco recebeu uma delegação do Prémio «É Jornalismo». No discurso que lhe dirigiu manifestou a esperança de que «hoje, numa época em que todos parecem comentar tudo, até independentemente dos acontecimentos e muitas vezes até antes de estar informados, redescubramos e voltemos cada vez mais ao cultivo do princípio de realidade. A realidade é superior à ideia, sempre, a realidade dos acontecimentos, o dinamismo dos eventos; que nunca são imóveis, evoluem sempre, para o bem ou para o mal». Que se evite, disse, «o risco de a sociedade da informação se transformar na sociedade da desinformação».

 


2. Alertou, de seguida, para o que considera serem quatro pecados do jornalismo: a desinformação, quando o jornalismo não informa ou informa mal; a calúnia; a difamação, que é diferente da calúnia, mas destrói; a coprofilia, ou seja, o amor pelo escândalo, pela sujidade. O escândalo vende, disse.

 


3. A atividade jornalística, na minha perspetiva, deve ser encarada mais como serviço do que como negócio. Serviço à Comunidade. Uma forma de contribuir para a existência de cidadãos cada vez melhor informados. Consequentemente, mais conscientes, mais livres, mais responsáveis nas decisões a tomar e nos juízos a emitir.

Infelizmente, às vezes, predomina a ideia do negócio. Há mais a preocupação de publicar o que melhor vende do que o que melhor serve.

 


4. É evidente que o exercício da atividade jornalística acarreta despesas e onde há despesas são necessárias receitas. Teoricamente a grande receita da atividade jornalística provém da publicidade. Na imprensa escrita, vem antes da que proporciona a venda do jornal.

Às vezes, para cobrir as despesas, há o recurso aos subsídios.

Estas duas fontes de receita acarretam um perigo: o de comprometerem a independência do jornal. 

Qualquer órgão de comunicação social, para ser tão livre quanto possível, precisa de ser independente, mas quem subsidia tem a tentação de querer mandar. E muitas vezes manda mesmo. Algo de semelhante sucede com quem anuncia: se não vê satisfeita a sua vontade ou se o jornal publica algo que pode ser prejudicial ao seu negócio, fecha a torneira.

 


5. É complexo o mundo da comunicação social mas precisamos dela. De uma comunicação social que sirva cada vez melhor. Que em vez de insistir, teimosamente, em salientar aspetos negativos, saiba levantar os olhos e reconhecer o muito de bom que tem havido e há nas pessoas e comunidades. Quem passa a vida a olhar para o lixo não consegue ver as estrelas, e é pena. Há tanta coisa boa que deve ser conhecida! 

Como diz o Papa no citado discurso, o bem comum reclama a existência de «uma comunicação construtiva, que promova a cultura do encontro, não do conflito; a cultura da paz, não da guerra; a cultura da abertura ao outro, não do preconceito».

 


6. «A comunicação, lembrou também o Papa, é sempre ida e volta. Digo, ouço e respondo, mas sempre em diálogo. Não se trata de slogan.

Preocupam-me, por exemplo, as manipulações daqueles que, de forma interesseira, propagam fake news (notícias falsas) para influenciar a opinião pública.

Por favor, não cedamos à lógica da oposição, não nos deixemos influenciar pela linguagem do ódio.

Na conjuntura dramática que a Europa vive, com a continuação da guerra na Ucrânia, somos chamados a um sobressalto de responsabilidade.

Espero que se dê espaço às vozes de paz, a quem está comprometido em pôr fim a este e a muitos outros conflitos, àqueles que não se rendem à lógica “cainista” (de Caim, que pôs termo à vida do irmão) da guerra, mas continuam a acreditar, apesar de tudo, na lógica da paz, na lógica do diálogo, na lógica da diplomacia».

Nota: o que vai entre parênteses é da minha responsabilidade.

Silva Araújo

Silva Araújo

7 setembro 2023