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Ocidente (5)

 1. No anterior artigo referimo-nos à publicação recente de “Um Ocidente sequestrado ou a tragédia da Europa central”, um livro de Milan Kundera (1929-2023) – falecido em Julho, que, aos 94 anos, viu dois vaticinadores ensaios seus serem republicados; aí, demos ênfase ao Discurso “A Literatura e as pequenas Nações”, pronunciado por Kundera ao Congresso dos Escritores da Checoslováquia de 1967, em plena Primavera de Praga, que viria a ser esmagada pelas tropas soviéticas. Não resisto em transcrever mais esta passagem, contra a repressão de então: "Qualquer repressão de uma opinião, incluindo a repressão brutal de opiniões falsas, vai no fundo contra a verdade, essa verdade que não se encontra senão confrontando opiniões livres e iguais."

 


2. Hoje tratamos do segundo texto – que deu o título ao livro –, no qual Milan começa por recordar o ‘telex’ desesperado que o Director da Agência de Imprensa da Hungria enviou para todo o mundo (Setembro de 1956), momentos antes de o seu gabinete ser arrasado pela artilharia russa: "Morremos pela Hungria e pela Europa." Ora, interroga-se Milan: "O que é a Europa para um húngaro, um checo, um polaco? Desde o começo que estas nações pertenciam à parte da Europa enraizada na cristandade romana. Participaram em todas as fases da sua história. A palavra “Europa” não representa para eles um fenómeno geográfico mas sim uma noção espiritual que é sinónimo da palavra “Ocidente”. No momento em que a Hungria já não seja Europa, isto é, Ocidente, ela será ejectada para fora do seu próprio destino, para fora da sua própria história; ela perderá a essência mesma da sua identidade."

 


3. Como Milan realça, a Europa geográfica (a que vai do Atlântico aos Urais) sempre esteve dividida em duas partes que evoluíram separadamente – uma ligada à Roma antiga e à Igreja Católica (sinal particular: alfabeto latino), a outra ancorada em Bizâncio e na Igreja Ortodoxa (sinal particular: alfabeto cirílico); depois de 1945, a fronteira entre essas duas Europas mudou centenas de quilómetros para Oeste, e, subitamente, algumas nações, sempre ocidentais, em certo dia acordaram como sendo do Leste.

Ora, foi nesta Europa central que se concentrou, por 35 anos, o longo drama europeu, seja a revolta húngara de 1956 (e o sangrento massacre que se seguiu), a Primavera de Praga de 1968 (esmagada pelos tanques russos), as revoltas polacas de 1956, 1968, 1970 (e a repressão subsequente). Cada uma dessas insurreições só foi possível pelo enorme apoio de seus povos, encorajadas pela ânsia veemente de libertação; sem o apoio da Rússia, tais regimes totalitários soçobrariam ao fim dalgumas horas. Esse o drama do Ocidente: uma Europa Central, dividida e fragmentada, culturalmente ligada ao Ocidente, politicamente na órbita do Leste desde 1945.

 


4. Milan recorda: "Gostaria de sublinhar isto: é na fronteira oriental do Ocidente que, melhor que em qualquer outro lado, se pode perceber a Rússia como um anti-Ocidente". Por muito tempo, escreve ele, as nações da Europa Central sonharam com uma aliança à Europa Ocidental, assente no respeito pela diversidade, ao contrário da uniformidade imposta pelo imperialismo russo. "Com efeito, nada poderia ser mais estranho à Europa Central e à sua paixão pela diversidade do que a Rússia, uniforme, uniformizadora, centralizadora, que transformou com total determinação todas as nações do seu império (ucranianos, bielorrussos, arménios, letões, lituanos, etc.) num único povo russo."

 


5. Os povos da Europa central sofreram as "velhas obsessões anti-ocidentais da Rússia", revividas pelo comunismo. Milan é claro: "Quero enfatizar isso mais uma vez: é na fronteira oriental do Ocidente que, melhor do que em qualquer outro lugar, a Rússia é percebida como um anti-Ocidente; ela aparece não apenas como uma das potências europeias entre outras, mas como uma civilização particular, como outra civilização." E adverte: "Eis por que razão, nesta região de pequenas nações que “ainda não pereceram”, a vulnerabilidade da Europa, de toda a Europa, se tornou mais claramente visível que noutros lugares. Com efeito, no mundo moderno, onde o poder tem tendência a concentrar-se cada vez mais nas mãos de alguns grandes, todas as nações europeias arriscam-se tornar-se em breve pequenas nações e sofrerem a respectiva sorte".

Em 1983, Kundera desesperava de uma Europa que já não pensa em quem realmente a quer; todavia, teve a fortuna, décadas depois, de ver a União Europeia acolher tais Estados que tudo fizeram para voltar à órbita ocidental. Quando agora a nação ucraniana resiste à invasão russa, não é despiciendo voltar a estes textos que mostram a importância da resistência através das ideias e da cultura, cimento que marca a identidade de um povo. Por isso, Milan recorda a frase do grande escritor checo Karel Havlicek, que, já em 1844, proclamara: "Os russos gostam de chamar eslavo a tudo o que é russo para depois chamar russo a tudo o que é eslavo."

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

26 agosto 2023