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Síndrome do membro fantasma

Não é um quadro indicador de filme de terror ou de loucura. A síndrome do membro fantasma, é uma condição em que o doente experiencia dor ou uma outra qualquer sensação num membro que não existe. Esta foi pela primeira vez colocada como hipótese em 1551.

Há registos de que cerca de 80-100% dos amputados reporta esta sensação, seguindo um percurso crónico e muitas vezes resistente ao tratamento. A elevada prevalência, assim como os elevados níveis de intensidade da dor são fatores cruciais numa diminuição da qualidade de vida do paciente amputado.

Trata-se de uma condição complexa que perturba o paciente assim como a família, que coloca muitas vezes em causa a sanidade mental do paciente. É por isso uma condição que causa transtorno no seio familiar, uma vez que não é de fácil compreensão nem mesmo para a ciência. Esta tem tentado encontrar respostas, tendo por isso já identificado como fatores de risco a presença de dor previamente à cirurgia, amputação traumática ou até mesmo o tipo de procedimento anestésico que é seguido durante a amputação.

Até hoje, são inúmeras as teorias patofisiológicas que foram propostas, incluindo mecanismos espinais, sensitização central e reorganização cortical somatossensorial, e apesar de estudos recentes ajudarem um pouco a clarificar esta situação ainda muito está por perceber. A maior parte dos estudos afirma que após a amputação há uma reorganização central (a nível cerebral), uma vez que com a ausência de um membro o cérebro tem necessidade de se reorganizar, no entanto, algum erro ocorre nesta reorganização, que amplifica a dor e não permite que esta desapareça. Estas conclusões são tiradas com base em exames clínicos como ressonâncias.

No meio de tantas duvidas quanto à razão da existência da síndrome (etiologia), o tratamento que inclui fármacos (medicamentos), fisioterapia e modalidades comportamentais também ainda não é consensual.

Na fisioterapia recorremos a estratégias tais como exercícios imaginários com o membro amputado, terapia de espelho ou mesmo recorrendo à realidade virtual aumentada, não esquecendo a dessensibilização ou terapia de reprocessamento. Não conseguimos perceber e a literatura também não nos esclarece qual a melhor estratégia ou método de intervenção para controlar a condição clínica. Uma das técnicas que tem vindo a ganhar espaço é a neuromodulação, sendo que esta parece ser a melhor, até ao momento, na redução dos sintomas e com efeitos colaterais mínimos.

Convém assim explicar um bocadinho sobre o que é a neuromodulação; esta é uma alteração da atividade dos nervos, recorrendo a estímulos direcionados a áreas neurológicas especificas, ou de um modo muito mais simples, é como se estivéssemos a ensinar aos nervos como é que eles devem funcionar de modo adequado e para isso damos estímulos em áreas especificas do corpo. Com esta abordagem é possível restaurar funções ou diminuir sintomas que possuem uma base ou influência neurológica.

Sendo a síndrome do membro fantasma uma condição difícil de compreender e de tratar, a neuromodulação apresenta-se talvez como uma luz ao fundo do túnel no auxílio a estes pacientes e respetivas famílias.

Andrea Ribeiro

Andrea Ribeiro

15 agosto 2023