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Calar e esconder, verbos de um poder absoluto

Costa não se pode queixar de ser acusado de desvalorizar a corrupção. Quem cala consente e no caso do ex-secretário de Estado da defesa, António Costa calou. Calar é não se exprimir sobre um assunto, não emitir uma opinião que seja; foi o que aconteceu quando veio a lume a demissão do ex-governante e o primeiro-ministro quis meter para debaixo do tapete o assunto incómodo para si e para o seu governo, perante a opinião pública e uma oposição que não deixou de aproveitar a oportunidade para pôr o dedo em mais uma ferida de um Executivo na iminência de uma septicemia. Bem sei que no processo que envolve Marco Capitão Ferreira, este é ainda e apenas arguido, mas deveria ter merecido uma reacção activa do primeiro responsável do Governo. Não o ter feito, não significa que o secretário-geral socialista defenda a corrupção ou coisa parecida, longe disso, no entanto, para fugir à incomodidade de ter de falar de um seu correligionário em apuros não condenou veemente a corrupção como deveria ter feito. Uma “Tempestade Perfeita” afetará, por isso, muito mais do que pode parecer! E Costa não se pode queixar do incómodo das críticas que lhe têm sido feitas. Ainda que tenha tentado reagir posteriormente à acusação num artigo de opinião, depois de melhor ponderação política, dando uma no cravo e outra na ferradura, como se costuma dizer, isso foi apenas um penso numa ferida que se alastra na credibilidade de um Governo que soma casos em cima de casos, sem que os portugueses sintam que há condições para que se instale a normalidade, sendo que esta vem de dentro e nenhum silêncio ou qualquer assessoria a consegue construir por fora. Se o mal se instala no interior de um organismo e ganha raízes, o melhor que se pode fazer não é a administração de alguns comprimidos, ainda que da última geração, mas a realização de uma operação atempada e coordenada por um qualificado cirurgião.

2. O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP é um dos exemplos que queimam a democracia em lume brando. Foi longe demais, ao esconder factos relevantes e a verdade. Era suposto que, apesar do relator ser deputado socialista, o relatório fosse independente. Não foi. E pior, foi extremamente tendencioso e choca qualquer um que acompanhou pela comunicação social o que lá se passou. No dizer de um líder da oposição, o documento produzido, ainda que preliminar, é “uma vergonha democrática” e esconde “um crime político e financeiro” que foi a gestão da ainda companhia aérea portuguesa “desde que o PS ousou governar”. O Partido Socialista tem, de facto, muita dificuldade em lidar com a verdade, isso tem-se visto com muita clareza ao protagonizar números diversos para desviar as atenções dos assuntos mais incómodos. Mais do que para apurar a verdade, o escopo último de uma CPI, o PS utilizou a realizada à TAP para “ocultar o mais possível as trapalhadas que envolveram os seus governantes”, no dizer de outro líder da oposição. Isso não é democracia – sem moral, o número não representa nada nem ninguém – é irresponsabilidade e prepotência.

3. Os portugueses têm visto o que é uma maioria absoluta, mas foram muitos que a quiseram. Já a quiseram por quatro vezes, incluindo a actual. E aí está no seu esplendor, com os seus autoritários líderes a negar respostas, a mentir descaradamente aos portugueses e a fabricar explicações sem fundamento, ainda que formalmente válidas. É o poder absoluto socialista. É o sistema político enviesado, hipócrita e corroído que temos a que, impropriamente, chamamos de democracia. As consequências chegarão mais tarde. E nessa altura já será tarde para reclamar. Como o  voto é pessoal e intransmissível, cada um deve assumir as suas responsabilidades. No fundo, somos todos responsáveis, embora uns mais do que outros. Vale a pena reflectir sobre as nossas decisões passadas para que as próximas sejam mais fundamentadas e menos clubísticas. Alternativas existem e, ao menos para já, sem vícios que se conheçam.

Luís Martins

Luís Martins

18 julho 2023