É comum aceitar-se que as noções de liberdade, igualdade e fraternidade são uma criação da revolução francesa. Mas pelo menos os dois primeiros conceitos foram anteriormente desenvolvidos pelo Iluminismo, em particular por Rosseau e Locke. O Corpo Político é o meio que Rousseau encontra para que se devolva ao homem aquilo que ele é por natureza: livre e igual aos outros seres. Encontramos quem veja os princípios na obra de Antoine Arnauld, católico do século XVII que propôs em 1644 uma tradução do "De moribus ecclesiæ catholicæ", de Santo Agostinho, no qual se lê que: a Igreja reúne os homens em fraternidade, que os religiosos vivem a igualdade por não terem propriedades, que os fiéis “vivem na caridade, na santidade e na liberdade cristã”. Inspirado em Proudhon, Antero de Quental viria a dizer que
a Justiça (Fraternidade/Igualdade) é a meta a ser alcançada e a Liberdade, iluminada pela Ciência e a Razão, é o método que em qualquer circunstância permitiria trilhar esse caminho. Facto é que a tríade divisa figura nas constituições francesas de 1948 e de 1958 e faz parte integrante do património nacional francês.
França vem sendo varrida por violentos protestos pelo decesso de Nahel, um jovem de 17 anos de ascendência argelina e marroquina, morto em Nanterre por um polícia durante uma operação de trânsito. Nahel serviu de grito de guerra para milhares de pessoas que o veem como símbolo do tratamento injusto que a polícia francesa tem contra os jovens descendentes da imigração norte-africana.
A ONU encorajou a França a investigar os problemas estruturais de sua polícia em sequência do acontecimento, apontando que é a hora do país abordar seriamente as questões profundas de racismo e discriminação racial dos agentes da lei e apelando ao respeito dos princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade e não discriminação.
Nos Estados Unidos acontecem ciclicamente situação similares, como a morte às mãos de polícias de Tyre Nichols, Breonna Taylor e de George Floyd. Haverá alguma conclusão a retirar do facto dos dois países ocidentais que se constituem como paradigmas da democracia, cujos princípios de justiça e liberdade emergiram de revoluções ocorridas com poucos anos de diferença no último quarto do século XVIII, serem aqueles onde surgem mais ondas de violência por casos de mortes de não brancos por forças da autoridade, em circunstâncias que a própria sociedade e o Estado condenam?
Não é crível que haja qualquer conclusão a retirar que aponte para que sejam países onde a polícia esteja imbuída de preconceitos racistas. Cada uma dessas nações tem os seus problemas específicos de integração de emigrantes, mas isso também sucede porque se tratam de países historicamente abertos ao acolhimento de cidadãos de todas os credos e raças. E o facto dos conceitos de Justiça e Liberdade estarem muito enraizados na cultura desses povos, como matriz fundadora de ambas as nações, leva a que a reação do povo seja enorme quando há perceção que tais valores estão a ser postergados. A França continua a ser um pilar da Justiça e da Liberdade.
De França vem Christine Lagarde, presidente do BCE, que no seu fórum em Sintra na passada semana, nas palavras de Marques Mendes, fez um discurso incendiário e sem sensibilidade social, ao afirmar que o processo inflacionista mais persistente é causado pelo aumento dos salários, pelo que manterá a trajetória de aumento das taxas de juro, não só apelando a que o aumento dos salários seja moderado, mas também que os governos europeus revertam as medidas de ajuda às famílias e empresas implementadas em resposta ao aumento da inflação.
São afirmações que em nada honram a divisa do seu país, sobretudo o da justiça social. Paulo Portas suaviza o discurso com a metáfora do barco que se está a afundar: o BCE tira a água e os governos repõe o nível da mesma e assim não há embarcação que resista. Mas não se esqueça que foi a parisiense que andou distraída e só quando o barco estava a afundar é que interveio. Como em tudo na vida, o que é preciso é o trade off entre controle da inflação e condições de vida. E não se compreende como é que Lagarde ameaça com mais subida de juros para controle da inflação, quando Portugal registou uma descida da taxa homóloga para 3,4% em junho (8,7% há um ano) e a aproximar-se da meta dos 2% traçada pelo BCE.