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O império das conjuras

Se há terra onde, desde tempos imemoriais, prolificam conjuras, conspirações e revoluções, é o imenso território da Rússia. Ajuda-nos a referência de Claudio Ingerflom, no seu livro “Le tsar, c’est moi: l’imposture permanente d’Ivan le Terrible à Vladimir Poutine” (2015), embora Franck Fabry, em “Aux Origines de l’autocracie russe” (2020) retroceda três séculos, em que «o poder político se tornou cada vez mais brutal e despótico». A Rússia, ao contrário das monarquias do tempo, era desprovida de respaldo constitucional: se um rei não poderia escolher o seu sucessor, o czar podia; mas à morte de cada déspota, sucedia-se o caos…

 


1. Um «poder brutal e despótico» foi o de Ivan o Terrível (1530-1584), uma memória de crueldades; ainda a mãe era regente e ele criança, mandou prender os tios e deixou-os apodrecer na prisão, pois o medo de assassinato perseguia-o; e, quantos se lhe opunham, eram impiedosamente eliminados. No célebre filme de Eisenstein, cuja primeira parte é rodada em 1944, Ivan é visto como herói que enfrenta os estrangeiros, para contentamento de Estaline, que, entretanto, proibirá a segunda parte do filme ao ver nele o espelho do seu próprio despotismo. Com a morte do Czar (1584), em 3 décadas, até ao primeiro Romanov (1613), sucederam-se nada menos que 5 czares.

Miguel Romanov foi o 1.º da dinastia que governou a Rússia por mais de 300 anos (os Romanovs eram uma antiga família de boiardos, os aristocratas de Moscovo). Miguel I foi excepção: o seu poder dependia duma assembleia nacional, e para a sua escolha até participaram representantes dos camponeses. Iniciou a europeização da Rússia, estabelecendo indústrias e a produção de ferro, cujo impulso maior se sentiu no reinado do neto, Pedro o Grande (1672-1725), o fundador de Saint-Petersburgo. Este, com 10 anos apenas, presencia uma invasão de amotinados no Kremlin, com dois tios eliminados à queima-roupa, pelo que esmagou a tentativa de golpe de 1689, porventura instigada pela irmã Sofia Alexeievna; mais de mil rebeldes executados, a regente destituída (confinada até à morte no Convento de Novodevichv).

 


2. No século seguinte, houve 9 czares ou czarinas, pois, em cada sucessão os conflitos ressurgiam. Anna Ivanovna prendeu e torturou quantos se opunham às suas ordens nos 10 anos do seu reinado, mergulhando a Rússia na “era das trevas” – conhecida como Ivanna a Terrível. Catarina II a Grande (1729-1796), apesar de origem estrangeira tornou-se popular, casou com o czar Pedro III, mas orquestra um golpe contra o marido (1762), é aclamada (Pedro III abdica, depois encontrado morto na cela). Ela iniciou reformas, desde a obsoleta administração ao fomento da agricultura e do comércio, ficando para a história como a “déspota esclarecida”. O filho Paulo I (1754-1801) foi imperador da Rússia até ser estrangulado por soldados, após 4 anos de reinado, em que alterou vários planos de Catarina. O príncipe herdeiro, o czar Alexandre I, que governou o Império aquando das lutas napoleónicas, instigou uma conjura contra o pai (não o assassinato). Com a morte deste, em 1825, o irmão Constantino renuncia ao trono para desconsolo de quantos esperavam dele reformas liberais. Nicolau I, o irmão mais novo, publicita o “manifesto” em que reclama o poder, que exerceu despoticamente, deixando o país em estado miserável (nem sequer findou com a ‘servidão’), que culminou na derrota russa na guerra da Crimeia, reprimindo ferozmente a conspiração para o destituir – a Insurreição Dezembrista.

Nicolau II, o último czar (1894 a 1917), só piorou a vida dos russos, não hesitando em abrir fogo contra uma multidão que pedia audiência em frente ao Palácio de São Petersburgo, matando mais de mil pessoas, o “Domingo Sangrento” – o estopim para uma série de revoltas, que culminaram na Revolução de 1917 (foi assassinado, em 1918, com a czarina Alexandra e os 5 filhos).

 


3. As conspirações não desapareceram com a Revolução comunista de 1917, quando os bolcheviques conquistaram o poder. Em Janeiro de 1924, os possíveis sucessores Lenine (Estaline, Zinoviev, Kamenev, Bukarine, Molotov e Dzerjinski, à excepção de Trotsky já afastado por Estaline) carregam o caixão à espreita de quem trama o outro e arrebata o poder. Quase 30 anos mais tarde, a cena repete-se, tem Estaline 74 anos, enfermo e dependente dos seus mais fiéis (Béria, Malenkov, Khruchtchev, Bulganine); então vence Khrushchev, que liquidou sucessivamente Béria servindo-se de Malenkov, Malenkov usando Molotov, e a este manobrando Brejnev; mas 8 anos depois (Outubro de 1964) é Khrushchev alvo de golpe palaciano, perpetrado por Brejnev, antigo protegido.

A política reformista “perestroika”, conduzida por Gorbatchev na década de 80 do século passado, poderia ter sido a hora da democracia para a Rússia e a paz no mundo, mas sabemos como Ieltsin tramou Gorbatchev, e estranhamente passou o poder a Putin, e já lá vão 23 anos de poder, uma história já sabida, até à próxima conspiração…

 


O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”

 

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

18 junho 2023