O Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, presidiu hoje, na Sé Primaz, à instituição de 14 leitores, numa celebração em que estiveram também presentes familiares. Na homilia, o Prelado desafiou os novos leitores a aprofundarem a relação com a Sagrada Escritura, fazendo da Palavra de Deus um alimento diário e um guia para a vida. A escuta, a vivência e a partilha da Palavra foram apontadas como dimensões fundamentais deste ministério, no caminho de preparação humana, intelectual e espiritual para o diaconado.
«A primeira missão do discípulo é escutar», afirmou D. José Cordeiro, a partir do imperativo “Escuta Israel”, repetido na primeira leitura da celebração. Mais do que assimilar sons e palavras, explicou, escutar significa «sintonizar o coração com a voz de Deus, que continua a chamar e a enviar discípulos para o trabalho na Sua messe».
A instituição no ministério de leitor representa, neste percurso, mais um passo na preparação daqueles que se encaminham para o diaconado. O Arcebispo recordou, a este propósito, a importância atribuída pela Constituição Dei Verbum, do II Concílio do Vaticano, à Sagrada Escritura, venerada pela Igreja como o próprio Corpo do Senhor e apresentada como alimento da alma, sustento da fé e fonte de vida espiritual: «Não esqueçamos: o silêncio faz escutar», acrescentou, citando o filósofo Byung-Chul Han e salientando a necessidade de criar espaço interior para acolher a Palavra de Deus.
Servir a Palavra e a comunidade
D. José Cordeiro sublinhou que o leitor exerce o seu ministério como «servo da Palavra e da comunidade onde se insere». Por isso, esta missão deve ser assumida como «serviço desinteressado ao bem de toda a comunidade eclesial e nunca como um destaque, uma promoção ou um poder».
O ministério não se esgota, contudo, na proclamação das leituras durante as celebrações litúrgicas. Para o Arcebispo, ler a Escritura implica, primeiramente, escutá-la, meditá-la e vivê-la concretamente no quotidiano. «Um leitor até pode ser exímio na técnica vocal com que lê um texto sagrado, mas contradizer tudo aquilo que leu ao não ser capaz de o viver de forma concreta na sua vida», advertiu.
A referência ao Evangelho proclamado na celebração, em que Jesus afirma que a passagem da Escritura se cumpre naquele momento, permitiu ao Prelado reforçar esta ideia. Cristo assumiu a profecia de Isaías como programa de vida, realizando-a plenamente através das suas palavras e ações. É esse testemunho que deve inspirar os leitores no exercício do seu ministério.
Conhecer a Escritura com o coração
Num terceiro ponto, D. José Cordeiro apresentou o contacto quotidiano com a Bíblia como condição essencial para um bom exercício deste serviço. Preparar tecnicamente as leituras é importante, mas tal deve ser acompanhado pela meditação, pelo confronto pessoal com a Palavra e pela disponibilidade para a conversão. O bom leitor é também aquele que conhece os diferentes textos e géneros literários da Escritura e não guarda para si a riqueza que neles encontra, mas a partilha com a comunidade, promovendo a Lectio Divina, método de leitura orante da Palavra de Deus.
Citando São Jerónimo, o Arcebispo recordou que «ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo», salientando que conhecer a Bíblia «de coração e não apenas com a inteligência» permite aceder à sabedoria da salvação.
Aos novos 14 leitores, deixou assim o encargo de tornar viva a Palavra de Deus na própria vida e na vida dos outros, ajudando as comunidades a descobri-la não como um mero conjunto de textos, mas como «uma nascente que alimenta a vida cristã em cada momento».
D. José Cordeiro evocou ainda a sua Nota Pastoral Ministérios laicais na Igreja sinodal missionária, para reafirmar que a espiritualidade do leitor deve ser continuamente alimentada pela oração e pelo contacto familiar com a Escritura, que vive na Liturgia e constitui a alma de todo o Apostolado.
O horizonte deste ministério encontra-se, concluiu, na atitude de João Baptista perante Cristo, sintetizada nas palavras do Evangelho de São João: «Convém que Ele cresça e eu diminua».