O núncio apostólico em Portugal, arcebispo Andrés Carrascosa, associou hoje “o ataque” de Donald Trump ao Papa com a incapacidade de aceitar quem pensa diferente, num mundo mais perigoso e onde o conceito de guerra preventiva procura justificar conflitos.
“No fundo, porquê o ataque de Trump [ao papa Leão XIV]?”, questionou hoje o arcebispo Andrés Carrascosa, sustentando que, quando alguém não é capaz “de confrontar-se com aquele que é diferente, que pensa diferente”, há que "tentar anulá-lo".
“Se não pode bater, [quem não aceita as diferenças] tem que falar, tem que atacar, tem que destruir”, afirmou o núncio apostólico em Portugal na Conferência "Diplomacia da paz num mundo em conflito: da urgência à utopia?", integrado no programa das V Jornadas de Comunicação do Santuário de Fátima.
Na conversa em que o nome do Presidente norte-americano foi abordado várias vezes, o núncio lembrou que “há mais América” por trás do líder do país, instando a que comunicação social fale menos do Presidente, que “gosta que se fale dele” e sobre o qual ironizou: “pensa que é Deus”.
Nos últimos dias, Donald Trump e o Papa Leão XIV trocaram críticas públicas, depois de o pontífice ter assumido uma posição firme contra a guerra e a favor da paz, tendo sido acusado pelo líder norte-americano de ser "fraco contra o crime" e "terrível em política externa".
No seguimento dessas críticas, o chefe da Igreja Católica respondeu a Donald Trump que "o evangelho é claro" e que "a Igreja tem a obrigação moral de ser contra a guerra".
Numa altura em que “o mundo está a mudar de uma forma perigosa”, o debate não pode centrar-se apenas em Donald Trump, quando líderes de países como a Rússia ou a China invadem outros territórios, defendeu o arcebipo.
“Um dos grandes problemas dessa mudança" foi o crescimento do “conceito de guerra preventiva”, com países que, “achando que vão ser atacados, atacam primeiro”.
Um caminho que, para Andrés Carrascosa, põe em causa o direito internacional, já que se “perde toda a força da lei" em favor "da lei da força”.
Na conferência, o núncio alertou ainda para o crescimento dos populismos, que “propõem soluções fáceis para problemas difíceis”, considerando que a guerra “nunca resolve nada”.
“Atacar uma população é sempre imoral”, afirmou, acrescentando que o problema se extrema quando uma ou ambas as partes “quer justificar o injustificável”, defendendo a necessidade dos conflitos armados, com motivos “religiosos ou outros".
Por isso, justificou, o Papa Leão XIV visitou vários países africanos, onde estão “a ser gastos milhões” em armas e “quando há milhões de pessoas a passar fome”, para manifestar “a intenção de Santa Sé em concretizar a sua agenda de paz e reconciliação”.
O Papa está a realizar a sua primeira viagem apostólica a África, entre 13 e 23 de abril, visitando Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
O representante da Santa Sé em Portugal foi orador numa conferência em que participou também o diplomata, antigo embaixador da União Europeia nos Estados Unidos da América, nas Nações Unidas e no Reino Unido João Vale de Almeida, e o padre Angelo Romano, membro do Departamento de Relações Internacionais da Comunidade de Sant’Egídio.
As jornadas de comunicação do Santuário de Fátima prosseguem até ao final do dia com oficinas práticas.