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D. Nélio destaca importância da ajuda e acompanhamento a padres em crise

D. Nélio destaca importância da ajuda e acompanhamento a padres em crise
Fotografia Arquivo DM

Publicado em 11 de abril de 2026, às 22:25

Bispo Auxiliar de Braga alerta para riscos de burnout no sacerdócio

O Bispo Auxiliar de Braga D. Nélio Pereira Pita apontou o «acompanhamento» e «a ajuda» como duas vias essenciais para  auxiliar os sacerdotes em períodos de crise. 

Em entrevista ao padre jesuíta Paulo Duarte, adjunto do Diretor Nacional da Rede Mundial de Oração do Papa, D. Nélio fala da sua experiência de acompanhar e cuidar também dos sacerdotes. Recorda a importância da oração, da amizade, da direção espiritual e, se necessário, do acompanhamento mais técnico em psicoterapia e/ou psiquiatria, na vida de um sacerdote.

Numa entrevista ao podcast “Da Praça de São Pedro”, o Bispo Auxiliar de Braga aponta a passagem do seminário para uma paróquia como um dos momentos que pode motivar uma crise. «Essa passagem do seminário para a vida ativa, para uma comunidade muitas vezes formada por pessoas muito mais velhas, faz-nos perder um bocadinho o pé», sublinhou D. Nélio. O Bispo, que é também é especialista em Psicologia, sugere que «deixar-se ajudar» e «não deixar de ser acompanhado» é o caminho para prevenir situações de crise. 

«Aliás, isso acontece, por exemplo, na área da Psicologia; acontece também na Medicina, com os supervisores», nota o Prelado bracarense, salientado que a falta de supervisão, por vezes, paga-se caro. É que o supervisor «é alguém mais velho, mais experiente, é aquele que nos orienta, que nos acompanha, com quem podemos partilhar situações pastorais que vivemos», precisa o Bispo Auxiliar de Braga, para deixar claro que «a realidade [que um padre encontra numa paróquia] supera e muito» aquilo que se aprende durante o período de formação do sacerdote.

«E quando começamos a ter esses confrontos no dia-a-dia, precisamos de ter alguém que não seja só, entre nós, um colega porreiro, mas que seja alguém maduro, que nos oriente», adverte D. Nélio, enfatizando a ideia de que um sacerdote não se pode limitar à «paixão de querer fazer coisas, de ser uma pessoa extraordinária, de ser uma pessoa significativa na vida dos outros».

Risco do burnout na missão sacerdotal
 

A recomendação de quem é especialista em Psicologia é clara: «Começar com cuidado, não desvalorizar áreas como a oração, a formação pessoal, mas também não descuidar o exercício físico, nem o tempo de descanso».

O Bispo Auxiliar de Braga adverte que padres que «vivem assoberbados de trabalho», que são chamados a desempenhar funções «com muita burocracia» - é o caso dos que têm a seu cargo equipamentos sociais, lares residenciais, centros de dia, creches - têm maior risco de crise, inclusive na dimensão espiritual, até pelo burnout a que estão sujeitos.

D. Nélio Pereira Pita nota que «muitas vezes, é neste contexto que surgem crises. O que é que poderá ser? O que é que podemos dizer de uma crise na vida sacerdotal? Como digo, a intenção que o Papa Leão XIV nos desafia para este mês, é pensar e rezar pelos sacerdotes em crise», referiu o Bispo Auxiliar de Braga, alertando que a crise «pode ter diferentes cores, pode ter diferentes motivos e diferentes intensidades».

«Uma coisa é certa: ninguém está isento, enquanto estivermos neste mundo. O importante é identificar, e procurar a causa da crise», afirma D. Nélio, para alertar que «pode ser uma crise crónica, um problema com o qual tem que se viver toda a vida». Daí que seja «muito importante esta dimensão de não ficar sozinho, de gerir aquilo que é a sua problemática. É mesmo fundamental. Eu diria que é uma questão, às vezes, de vida e de morte», destaca o Prelado da Arquidiocese de Braga.

Importância de encontrar momentos para ser apenas pessoa

Para D. Nélio Pereira Pita, a exigência da versatilidade do trabalho sacerdotal merece também especial atenção. 

É que «celebrar às nove da manhã o funeral de uma pessoa muito estimada, muito querida; e passado duas horas fazer um casamento, obriga a mudar de registo; e passado outras duas horas estar numa reunião daquelas chatas de morte, no final do dia é uma roleta russa, é muito desgastante», alerta o Bispo Auxiliar de Braga. 

Motivo por que deve também haver espaço para o Padre ser apenas pessoa e ter momentos de distração saudável, como qualquer outro ser humano. E aceder ao chamado “terceiro lugar” - o “primeiro lugar” é a família e o trabalho o “segundo lugar” -, que pode ser um ginásio ou um bar, onde cada um é apenas pessoa, despida de títulos. 

«Na igreja, às vezes, faltam as palavras do “terceiro lugar”, porque é tudo o mesmo. Somos sempre, sempre padres. Sempre, sempre. Mas é importante termos um espaço onde podemos “descomprimir”, só relaxar. E esse espaço não deve ser vivido com culpa, sendo vivido de uma forma saudável, de uma forma moral», resume D. Nélio.