O Arcebispo Metropolita de Braga denunciou, hoje, na celebração da Morte do Senhor, na Sé Primaz, a carência de respostas nos cuidados paliativos em Portugal e apelou à consciência coletiva no sentido de colmatar este problema no sistema de Saúde que «impede a esperança e as lícitas expetativas dos doentes e suas famílias».
Diante de uma assembleia de fiéis que lotou a catedral, D. José Cordeiro lembrou os doentes em fase terminal que continuam privados de acompanhamento digno, compassivo e humano, e desafiou os cristãos a que façam ouvir mais a sua voz.
«Não podemos aceitar que mais de 70 por cento dos doentes continue sem acesso a cuidados paliativos. Precisamos de elevar mais alto o apelo, porque no Portugal de 2025, a maior parte dos adultos e crianças em situação paliativa está a ser abandonada à sua sorte, ano após ano», alertou o Arcebispo, referindo que é tempo das comunidades e governos atravessarem a «fronteira das justificações».
A celebração da Morte do Senhor, à hora que Jesus expirou na cruz no monte do Calvário, foi marcada por profundo recolhimento e silêncio, iniciando com a Liturgia da Palavra que conduz ao mistério pascal.
Na sua reflexão, o Arcebispo de Braga partiu da hora derradeira de Jesus na cruz - «o grande mistério de todo o mistério» - para explicar que a cruz e a Páscoa são inseparáveis.
«A hora de Jesus é a grande passagem - a Páscoa. É a grande hora do amor. É ainda a hora de ver o invisível no visível da cruz pascal. E este é o enorme risco da fé», evidenciou.
Lembrando que «em Cristo, não há Páscoa sem cruz e não existe cruz sem Páscoa», D. José Cordeiro citou S. Ambrósio para dizer que a fé é a «porta» que faz entrar na justiça, na paz, na alegria e que liberta.
«O Cristianismo fundamenta-se numa experiência tocante, qualificante, que muda gente desesperada em testemunhas de uma vida transformada», afirmou o prelado, que partiu do mistério da Cruz para falar da esperança que nasce da entrega de Cristo.
D. José disse que a cruz «é manifestação máxima do amor de Deus», «a gloria do amor» e que «o poder, a fama e a riqueza não entram nesta glória».
«Só o serviço, a pobreza e a humildade são caminho do amor», sublinhou.
Foi neste contexto que o Arcebispo alertou para os «impedimentos à esperança» que resultam da omissão de cuidados de saúde e apelou ao compromisso das comunidades cristãs nesta causa.
«Atravessemos – comunidades e governos – a fronteira das justificações que, ano após ano, impedem as legítimas expectativas dos doentes e das suas famílias», disse o Arcebispo, alertando: «há pessoas que já não têm lágrimas para chorar a sua pobreza e os seus sofrimentos».
Na sua reflexão, D. José falou também sobre o sofrimento na doença, citando o Pe. Júlio Fragata S.J. (1920-1985), um professor universitário em Braga que antes de ser operado escreveu que «o sofrimento sem amor é um esbanjamento».
Notando que os que sofrem e os excluídos são Cristo entre nós, D. José deixou uma interpelação: «Queremos ver Jesus? Então olhemos para os crucificados da história».
O Arcebispo conclui a sua reflexão citando Sebastião Alba, poeta bracarense que optou por viver na rua, mas que nunca deixou de procurar a beleza e o sentido último das coisas: «Tudo quanto fizermos de bom é preciso fazê-lo tão bem como se o fizéssemos pela última vez, e nunca mais, na vida, houvesse tempo».
A Liturgia da Palavra inclui ainda preces pela Igreja, pelo Papa, pelos Bispos, pelos fiéis, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não crêem em Cristo, pelos que não crêem em deus, pelos governantes, pelos atribulados e pelos migrantes.
Celebração da Morte do Senhor
culmina com Procissão Teofórica
A celebração da Morte do Senhor terminou com a Procissão Teofórica do Enterro do Senhor após o momento da Adoração da Cruz, segundo o rito bracarense.
Na Procissão Teofórica, um momento de grande emoção, a imagem de Jesus com o corpo dilacerado, colocada dentro de um esquife (urna) coberto de um manto preto, foi levada pelas naves da Catedral e depois foi deposta numa das capelas lateral onde ficou exposta à veneração.
O esquife é levado aos ombros, sob um pálio, pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro abrindo a procissão a Cruz e lanternas. A procissão incorporou também acólitos, sacerdotes, membros do Cabido, os bispos D. José Cordeiro e D. Delfim Gomes. Participaram também Irmãos da Misericórdia de Braga, que são convocados para este ato.
Com este rito pretende-se significar «o silêncio de Jesus na sepultura como oferta contínua da vida e do amor».
Este cerimonial, que se insere numa tradição medieval associada aos chamados ritos da “depositio” (deposição), terá sido introduzido na Sé de Braga no século XVI, dado que apenas é referenciado na versão do Rito Bracarense de 1558.





