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JMJ: Jovens acolhidos em Cracóvia antecipam casamento e acolhem peregrinos em Turquel

JMJ: Jovens acolhidos em Cracóvia antecipam casamento e acolhem peregrinos em Turquel
Fotografia Lusa

Agência Lusa

Agência noticiosa

Publicado em 15 de julho de 2023, às 11:02

Se não voltarem a participar numas jornadas esperam “poder ajudar outros a irem”,.

João e Elisa casam-se no sábado, encurtam a lua-de-mel e regressam para acolher na casa que juntos construíram, em Turquel, os jovens peregrinos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que serão os seus primeiros hóspedes.

Elisa Pedro, terapeuta ocupacional de 25 anos, e João Fernandes, gestor de produção de 27, ambos de Turquel, no concelho de Alcobaça, distrito de Leiria, namoraram durante 12 anos e dizem ter “crescido juntos e na fé”.

A três dias do casamento, com as obras ainda por terminar, nem um nem outro acusavam a pressão de começar a vida a dois acolhendo jovens que não sabem quem ou quantos são. “Tudo se arranja”, diz Elisa, convicta de que, quando surgem dificuldades, “Deus providencia”.

Filhos de pais católicos que tinham com a igreja apenas “o envolvimento típico de ir à missa ao domingo”, partiu deles a iniciativa de se envolverem nas atividades da paróquia e integrarem um grupo de jovens. “Éramos muito novos e era na catequese e nestas atividades que nos podíamos encontrar fora da escola”, lembra João.

Quando no grupo de jovens foi lançada a ideia de participarem na JMJ de Cracóvia (Polónia), em 2016, puseram as mãos na massa e, durante dois anos, fizeram “coscorões, sopas e pão com chouriço”, angariando dinheiro para a viagem. “Ir à Polónia era muito caro, mas conseguiu-se que ninguém tivesse de pagar”, conta João.

Munidos de sacos-cama embarcaram no avião, convencidos de que em Cracóvia dormiriam num pavilhão. Durante a viagem foram surpreendidos com a informação de que iriam ser acolhidos por famílias. Elisa e três outras raparigas por casal com cerca de 80 anos. João e outro colega, por outro casal, da mesma idade.

Com a velha máxima de que o gesto é tudo, e com a ajuda do ‘google tradutor”, venceram as barreiras da língua e recordam o acolhimento como “uma das melhores experiências da jornada”. Ficaram alojados em “casinhas muito pequeninas, sem quartos, onde as camas do casal eram os sofás que se se abriam à noite”. No caso de Elisa, os anfitriões cederam o sofá e “foram dormir num quarto minúsculo”.

Em qualquer das casas, quando se levantavam já encontravam preparado “um grande pequeno-almoço” e não saíam sem levar “uns lanches, maçãs…”. Da entrega dessas “pessoas simples, que davam o que tinham para acolher o melhor possível”, trouxeram o espírito que os leva a retribuir, acolhendo, como então foram acolhidos.

Elisa “trouxe de lá a vontade de dizer sempre sim” e admite que “se não tivesse ido àquela jornada talvez não aceitasse ser família de acolhimento”. Em Cracóvia aprendeu “a capacidade de adaptação, que tudo se consegue, se não há camas, há colchões e sacos-cama”. Por isso, acrescenta, quando souberam que a JMJ seria em Portugal, em agosto, organizaram-se para casar antes do previsto e “iniciar a vida de casal como família de acolhimento”.

Apostados em reconstruir uma casa antiga que compraram na aldeia de Carvalhal de Turquel, puseram mãos à obra e fizeram eles “todos os trabalhos que não eram de pedreiro ou carpinteiro”. Com pedras de antigas paredes, que demoliram, criaram um pequeno lago artificial ou uma área de lareira exterior, no jardim fronteiro à casa, onde já crescem as plantas e pequenas árvores que plantaram.

Três dias antes do casamento, depois dos últimos retoques na obra, ligaram à família e amigos, voluntários no apoio nas limpezas e arrumação do espaço que, durante as jornadas, será casa de acolhimento. “É uma aventura, não sabemos quem vem, podem até ser mais velhos do que nós, o que é um bocadinho estranho”, admite Elisa, certa de que quem vier terá “tão bom acolhimento” como o jovem casal teve na Polónia. A pensar nisso, um dos quartos da casa, “que poderia ter sido só ser mobilizado mais tarde, já está a ser preparado, com camas para os instalar”.

O exemplo incentivou os pais de ambos a inscreverem-se também como famílias de acolhimento. Na casa de onde Elisa sai para casar os pais da noiva também já adotam o lema “cabe sempre mais um”. “Primeiro prontificaram-se a receber três, depois quatro, e agora já dizem que se for preciso disponibilizam a cave para alojar mais gente”, conta a filha.

João faz parte do Comité Organizador Paroquial (COP) e coordena algumas das atividades que a paróquia desenvolve no âmbito das jornadas. Elisa é voluntária na preparação dos espaços e atividades programadas pela paróquia.

João e Elisa, que em Cracóvia participaram em tudo o que puderam e viram duas vezes o Papa Francisco, desta vez, estarão “a cuidar para que outros tenham a mesma oportunidade”. Mesmo que isso implique viverem “a jornada com um sentido de serviço”, ao invés de irem “para os grandes centros onde tudo acontece", vão ficar na freguesia a "fazer o que for preciso para que todos possam ser bem acolhidos e viver a experiência que nós vivemos”, explica Elisa, estimando que a exceção seja “no último dia, em Lisboa” onde querem ver o Papa Francisco na vigília.

Se não voltarem a participar numas jornadas esperam “poder ajudar outros a irem”, já que para Elisa e João, este é “um ciclo que se fecha”, retribuindo nesta jornada o que receberam em 2016. Depois da JMJ será tempo de "focar na família" que agora iniciam e usufruir da casa que construíram para viver, mas que começa por acolher.