Mais de 400 mochilas, duas centenas de coletes salva-vidas ou fardas militares transformadas em roupa de cama são algumas das produções de Ai Weiwei patentes a partir de sábado na Contextile – Bienal de Arte Têxtil Contemporânea, em Guimarães.
Cidadão e artista global, ativista e pensador, Ai Weiwei, nascido em 1957, Pequim, China, é o convidado da 8.ª edição da Contextile, que este ano gira em torno do tema – ‘Por um Fio/By a Thread’ –, e que, até 29 de novembro, vai ter em vários locais da cidade, exposições, residências artísticas, performances, intervenções no espaço público, ‘workshops’ e o ciclo Textile Talks.
O Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) recebe a exposição ‘Fabrication’, que contempla obras de Ai Weiwei, onde se destaca a presença da imagem icónica do dedo do meio levantado, celebrizada pelo artista, representada, nomeadamente, em cortinas gigantes que cobrem uma parede ou nas colchas de cama feitas a partir de fardas militares.
O diretor da Contextile explica à agência Lusa que, desafiado pela organização e sob o lema, “Por um Fio, o planeta está por um fio”, o artista desenvolveu e criou produções com foco nas questões do clima, nas catástrofes naturais, na poluição, na reciclagem e no reúso, mas também em temáticas sociais, como a guerra ou a crise dos refugiados.
Joaquim Pinheiro contou que Weiwei “pegou em fardas militares”, algumas de militares da Ucrânia, país onde o artista esteve em 2025 a filmar, e que foram destruídas numa empresa e transformadas em fio reciclado. Depois, com a ajuda da empresa têxtil Lameirinho, de Guimarães, “produziu um tecido com o símbolo do dedo do meio [levantado], um elemento icónico” do trabalho do artista chinês.
“Neste caso, de forma simbólica, as fardas militares deram origem a roupa de cama, com a mensagem: deixemo-nos de fazer mais guerras e vamos transformar isto em qualquer coisa útil, neste caso foi roupa de cama”, explicou o diretor do certame.
No CIAJ estão outras obras de Weiwei, como uma tenda militar, bordada com centenas de botões de várias cores e tamanhos ou um quadro colorido e em tecido com a palavra “FUCK”.
Nas paredes de outra sala do CIAJ estão, de um lado, cerca de 420 mochilas de crianças, e na outra duas centenas de coletes salva-vidas, alguns ainda com vestígios de lama. Entre as duas paredes, no chão, estão meia dúzia de malas.
Segundo Joaquim Pinheiro, as mochilas e os coletes salva-vidas personificam as catástrofes naturais, como sismos e inundações, que frequentemente assolam a China, e não só, sublinhando que no caso dos coletes salva-vidas simbolizam também a imigração e a crise de refugiados, uma realidade atual.
Já no exterior do CIAJ, está instalada uma das intervenções em espaço público, denominada de ‘Camuflage’, uma rede de camuflagem, com dezenas de metros, representando, também de forma simbólica, a proteção do “património humano”.
Weiwei, que a organização estima que “possa atrair muitos visitantes”, tem ainda outra intervenção em espaço público, com o nome ‘Net’, na zona de Couros, já classificada como Património da UNESCO.
Outro dos espaços que vai fazer parte da Contextile 2026 é o mercado municipal de Guimarães, que vai ter patente uma dezena de tapetes gigantes e de bonecas feitas em tecido, produzidos por uma artista de Taiwan.
Outra das vertentes da bienal deste ano prende-se com a parceria com a Guimarães – Capital Verde Europeia 2026.
“Sendo o ano de Guimarães Capital Verde Europeia, o que era transversal e ligava ao tema da Contextile, desenvolvemos uma parceria, com intervenções em espaço público à volta das grandes temáticas da bienal, muitas que remetem também para os temas que a Capital Verde Europeia desenvolve, como as questões climáticas, a sustentabilidade, a reciclagem, o reúso e a degradação do planeta e de todo o território”, explicou o diretor da Contextile.
Quanto à exposição internacional, no Palácio Vila Flor – Centro Cultural Vila Flor, vai ter 54 obras de 51 artistas de 27 países, selecionados pelo júri de entre os 1.604 artistas, de 81 países, que submeteram 2.036 obras em resposta à convocatória aberta para a exposição internacional.
“Realçar a exposição internacional, onde tivemos mais um recorde de participação, com mais de 1.600 artistas de 80 países a apresentarem 2.000 obras a concurso. Temos também a exposição emergências, que envolve escolas de ensino artístico, onde os alunos desenvolvem projetos e intervenções à volta do tema da bienal, ‘Por um Fio’”, deu conta Joaquim Pinheiro.
Na exposição “A change in the weather? Material story telling in na age of uncertainity”, a curadora Janis Jefferies convida artistas de diferentes nacionalidades para abordar temáticas atuais da sustentabilidade, das alterações climáticas e dos desafios da sociedade, em estreita relação com o tema da bienal.
Teresa Lanceta (Espanha), Jakkai Siributr (Tailândia), Simon Callery (Inglaterra) e Movana Chen (Hong Kong) são os artistas convidados por Janis Jefferies.
Já o “Growing House” é um projeto com a curadoria de Assadour Markarov e alunos da Academia de Arte da China, Hangzhou.
Quanto aos visitantes da Contextile, segundo Joaquim Pinheiro, os portugueses continuam a ser quem mais visita a bienal, mas há cada vez mais estrangeiros, sobretudo espanhóis, a procurarem a Contextile – Bienal de Arte Têxtil Contemporânea.