O professor catedrático jubilado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Alexandre Quintanilha, defendeu, hoje, em Vila Verde, que os grandes desafios da atualidade exigem diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, sustentando que os problemas do mundo são cada vez mais complexos e não podem ser resolvidos com respostas simples nem por especialistas isolados.
O cientista deixou esta ideia na conferência de encerramento da 7.ª “Feira de Ciência & Tecnologia”, organizada pela Casa do Conhecimento de Vila Verde, subordinada ao tema “Ciência e Tecnologia na Era das Perguntas”. A sessão, que decorreu no Salão Nobre dos Paços do Concelho, destinou-se aos professores das escolas dos agrupamentos do concelho.
Numa comunicação intitulada “A dúvida como pilar do conhecimento”, Alexandre Quintanilha centrou a sua reflexão na importância da dúvida na abordagem científica e na construção do conhecimento, evocando uma frase conhecida do filósofo e matemático Bertrand Russell que dizia que o maior problema do mundo é os “tolos” e os fanáticos estarem cheios de certezas e as pessoas mais sábias estarem cheias de dúvidas.
«Essa frase não podia ser mais atual», afirmou.
Segundo o cientista, não faltam pessoas com responsabilidades que apresentam certezas absolutas sobre temas como a política, a saúde, o ambiente, a justiça ou a igualdade, enquanto quem possui maior experiência reconhece a complexidade das questões e a necessidade de procurar respostas sustentadas.
«Os problemas que estamos a enfrentar são complexos», sublinhou, apontando como exemplos as alterações climáticas, o envelhecimento da população, a imigração e a natalidade. Questões que, sublinhou, «requerem diálogo entre pessoas de áreas de conhecimento diferentes».
Na sua intervenção, Alexandre Quintanilha alertou também para os efeitos da crescente especialização, considerando que a fragmentação do conhecimento dificulta a comunicação entre especialistas de diferentes disciplinas.
Esta situação, acrescentou, leva muitos cidadãos a desistirem de tentar compreender matérias complexas e a delegarem decisões nos especialistas, o que pode conduzir a «sociedades cada vez mais tecnocráticas».
Riscos do uso da IA
Um dos momentos centrais da conferência incidiu sobre a Inteligência Artificial, tecnologia que Alexandre Quintanilha classificou como «uma ferramenta fabulosa», mas que, na sua perspetiva, representa dois riscos: tornar as pessoas «mais preguiçosas» intelectualmente e deixarem-se seduzir pelas respostas.
«Quando usamos muito estas ferramentas, elas começam a conhecer-nos e dão respostas que sabem que gostamos. Começam a seduzir-nos. Isso é perigosíssimo. É muito pior do que as fake news. É mentir através da sedução», advertiu.
Segundo o cientista, perante esta realidade, os professores podem ter um papel essencial na formação dos alunos, ajudando-os a desenvolver pensamento crítico e a compreender que o conhecimento científico exige tempo, questionamento e validação.
Alexandre Quintanilha preconizou uma sociedade menos dominada pela velocidade e pela procura de respostas imediatas, defendendo a importância da reflexão e do diálogo.
»Se calhar, precisamos de andar um bocadinho mais devagar, refletir mais e falar mais com os outros. Aprende-se muito com os outros», afirmou.
A concluir a conferência, deixou uma mensagem sobre o papel da educação, recorrendo a uma frase de um jornalista que disse utilizar frequentemente: “A função principal da educação é transformar espelhos em janelas.”