O Centro da cidade de Viana do Castelo encheu-se ontem de vida e de cor com a realização do majestoso Cortejo Histórico/Etnográfico, integrado na romaria de Nossa Senhora d’Agonia.
Milhares de pessoas acompanharam nas ruas este desfile de tradições e cultura, que contou com cerca de 3500 figurantes vestidos a rigor, 33 carros alegóricos e 22 tocatas.
Um verdadeiro museu vivo das tradições e cultura vianenses que fez jus ao tema escolhidos para esta edição: “História e Tradição - isto é Viana”.
Os trajes regionais orgulhosamente envergados, o brilho do ouro tradicional, a alegria contagiante das “moças chieiras”, e o som dos bombos, zés pereiras e grupos de folclore, deram vida a quadros cénicos que arrancaram aplausos do público ao longo de todo o percurso.
As freguesias do concelho, uma vez mais, levaram ao centro da cidade as suas tradições, usos e costumes locais, representados em carros alegóricos aparelhados com esmero e orgulho.
Um dos exemplos foi o da freguesia de Castelo de Neiva, que apresentou um carro alegórico alusivo à apanha do sargaço, tradição antiga ligada ao mar e à fertilização das terras.
«Trouxemos até sargaço apanhado esta manhã, para dar mais autenticidade e beleza ao carro», explicou Rosa Marques, diretora do Grupo Folclórico de Castelo de Neiva.
«É um orgulho representar esta atividade. Ainda temos uma pessoa que continua a fazer a apanha do sargaço. É algo muito genuíno da nossa terra», acrescentou.
Rosa Marques lembrou a importância que esta atividade tinha para a agricultura e a economia local. Além de ser usada como fertilizante, o sargaço chegou a ser vendido à indústria farmacêutica.
Ao longo do cortejo, desfilaram figuras como o imperador romano César Augusto, auscultado pelo sua legião, D. Afonso Henriques e a sua corte, o apóstolo S. Tiago, Frei Bartolomeu dos Mártires, os padroeiros de Viana do Castelo (Santa Revocata, S. Teófilo e S. Saturino), entre outros, numa evocação histórica que enfatizou ainda o período Barroco em Viana, a os Caminhos de Ferro, o Mar e o Rio, os trabalhos agrícolas, as festas tradicionais do concelho, sem esquecer a filigrana de Viana, representada num carro com um coração gigante, onde particou a atriz Melânia Gomes.
O carro dedicado a São Tiago, preparado ao longo de um mês e meio por funcionários do municipio, destacou a ligação de Viana aos Caminhos de Santiago, lembrando que 2025 é Ano Jacobeu.
«É um orgulho para nós. Viana é uma cidade por onde passam cenetenas e centenas de peregrinos, temos albergue e tradição jacobeia enraizada», afirmou um dos responsáveis pelo quadro.
Legado familiar
A emoção esteve presente também nas histórias pessoais de quem desfilou. José Moreira, natural de Viana, representou pela primeira vez São Tiago:
«É mais fácil estar em cima do carro do que fazer o Caminho de Santiago», gracejou.
Armindo Vale, que incarnou Frei Bartolomeu dos Mártires, disse ao Diário do Minho: «É um orgulho representar esta figura ilustre da Igreja, tão importante para Viana».
Este desfile contou também com um número significativo de crianças, vestidas com trajes vianenses, acompanhados por pais e outros familiares.
Carolina, de 11 anos, desfilou pela primeira vez, acompanhada pela mãe, Sara Esteves, ambas de Santa Marta de Portuzelo.
«É uma sensação única, muito especial. Eu vim com a Carolina a pedido dela. Foi a avó que nos ofereceu os trajes. Viemos honrar este legado que vem da minha mãe, e também do meu pai. Os brincos e o traje são fruto do trabalho deles», contou Sara Esteves, visivelmente emocionada.
A pequena Carolina referiu que foi um gosto enorme participar no cortejo. «É um grande felicidade. Sempre quis participar no cortejo da Senhora da Agonia», disse.
Evento levou quase um ano a preparar
O cortejo histórico/etnográfico da romaria da Senhora d’Agonia percorreu, como é habitual, algumas das principais ruas do centro histórico de Viana, entre as quais a avenida Avenida dos Combatentes da Grande Guerra onde se encontrava instalada a tribuna de honra com diversas personalidades civis, políticas e religiosas. Entre elas, o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Luís Nobre, a presidente da Assembleia Municipal, Flora Silva, o bispo de Viana do Castelo, D. João Lavrador, e o presidente da Viana Festas, Manuel Vitorino.
Este desfile único, que celebra a identidade, a história e a etnografia vianense, resultou de quase um ano de trabalho árduo, envolvendo centenas de voluntários, técnicos, associações culturais e juntas de freguesia.
A dimensão e complexidade do cortejo exigem uma logística cuidada e um esforço conjunto de toda a comunidade.
«Sem o envolvimento de todos, não seria possível realizar um evento desta grandiosidade, cheio de cor, vida e emoção», sublinharam os organizadores, agradecendo publicamente o empenho de todos os que colaboraram.
A Romaria da Senhora d’Agonia continua este domingo, às 16h00, com a Procissão Solene, um momento de forte devoção religiosa que percorre as ruas da cidade com a imagem da padroeira dos pescadores, acompanhada por milhares de fiéis.
O ponto mais simbólico da festa será vivido na próxima quarta-feira, dia 20, com a Procissão ao Mar, após a Eucaristia solene marcada para as 14h30. Nesta tradição única, a imagem de Nossa Senhora da Agonia é levada até ao rio Lima, num gesto de homenagem sentido às gentes do mar, perpetuando um ritual de fé profundamente enraizado na alma vianense.

















