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Comité Económico e Social quer saúde mental na agenda europeia

Comité Económico e Social quer saúde mental na agenda europeia
Fotografia DR

Luísa Teresa Ribeiro

Chefe de Redação

Publicado em 11 de março de 2024, às 00:59

Prémio para a Sociedade Civil distingue instituição irlandesa.

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) quer colocar a saúde mental na agenda dos decisores políticos da União Europeia (UE) e dos Estados-Membros. 

Como forma de pôr o foco nesta questão, a saúde mental foi o tema escolhido para o Prémio para a Sociedade Civil, que acaba de ser conquistado pela instituição de caridade irlandesa Third Age Foundation.

Os vencedores da 14.ª edição deste galardão foram anunciados durante a primeira Semana da Sociedade Civil, que decorreu em Bruxelas, centrada na discussão sobre as próximas eleições europeias e o futuro da UE.

Na cerimónia de entrega dos prémios, o presidente do CESE, Oliver Röpke, referiu que a saúde mental é um tema que diz respeito a todos: políticos, organizações da sociedade civil e cidadãos.

Esta é, continuou, uma questão complexa, influenciada por diversos fatores, como aspetos biológicos, psicológicos, educativos, sociais, económicos e ocupacionais. As diversas crises sobrepostas – pandemia de Covid-19, guerras, instabilidade, aumento do custo de vida, habitação e desastres naturais – agravaram a dimensão do problema.

Cerca de 4% das mortes na UE devem-se as doenças do foro mental e de distúrbios de comportamento. Calcula-se que a saúde mental tenha um impacto de 4% no PIB. 

Os dados indicam que, antes da Covid-19, os problemas de saúde mental afetavam pelo menos 84 milhões de europeus (uma em cada seis pessoas). Já os valores do Eurobarómetro de junho de 2023 mostram que 46% da população da UE – quase uma em cada duas pessoas – passou por problemas emocionais e psicossociais nos últimos 12 meses.

«A saúde mental é, indiscutivelmente, um tópico que merece mais atenção», declarou o líder deste órgão consultivo, sublinhando que, «em toda a UE, as pessoas, jovens e idosas, enfrentam cada vez mais problemas de saúde mental. A ansiedade e a depressão aumentaram em toda a Europa». 

Perante os cinco finalistas da competição, este responsável destacou que a sociedade civil desempenha um papel fundamental na prevenção e tratamento de problemas na área da saúde mental, ao «providenciar serviços que atualmente não são prestados de forma adequada pelos sistemas públicos de saúde, dedicando especial atenção às necessidades dos grupos vulneráveis». 

Por seu turno, o vice-presidente do CESE responsável pela Comunicação, Laurențiu Plosceanu, afirmou que «as perturbações da saúde mental, como a ansiedade, a depressão e os distúrbios alimentares, aumentaram em toda a Europa. As perturbações da saúde mental podem ser uma epidemia silenciosa, mas são certamente uma epidemia enorme». 

Com este prémio, explicitou, o CESE pretende «quebrar este tabu e falar sobre saúde mental e bem-estar mental», colocando o tema «no topo da agenda dos decisores políticos, não só em Bruxelas, mas em todos os Estados-Membros», ao mesmo tempo que reconhece o «trabalho que a sociedade civil desenvolve para melhorar o bem-estar mental».

Entre o trabalho do CESE sobre esta temática, destaque para as opiniões “Trabalho precário e saúde mental” e “Medidas para melhorar a saúde mental”. 

 

Mais de cem candidaturas mostram sociedade civil em ação

O presidente do CESE, Oliver Röpke, afirmou que as mais de cem candidaturas oriundas de 23 Estados-Membros apresentadas ao Prémio para a Sociedade Civil e a diversidade de abordagens dos projetos a concurso mostram o compromisso destas organizações com a questão da saúde mental. «Estamos a homenagear a sociedade civil em ação», disse.

O primeiro prémio, no valor de 14 mil euros, foi arrecado pela instituição de caridade irlandesa Third Age Foundation, com a rede de apoio social “Envelhecer bem”, que combate a solidão na velhice, ajudando aqueles que estão isolados, frágeis e vulneráveis. Pessoas com mais de 50 anos apoiam idosos em risco e carenciados, através de visitas regulares, que servem para fazer companhia e para recolher dados de saúde, que são monitorizados através de uma aplicação para telemóvel.

A representante da instituição vencedora, Alison Branigan, referiu que é importante que os idosos não sejam esquecidos», considerando que, pelo facto de este grupo não ser muito visível, é preciso chamar a atenção para a relevância das intervenções comunitárias.

Em segundo lugar ficou a associação finlandesa Pro Lapinlahti, galardoada pelo centro comunitário Lapinlahden Lähde. O projeto consistiu na transformação do Hospital Lapinlahti de Helsínquia, que estava desocupado, num centro de promoção da saúde mental, uma «zona livre de diagnósticos, que permite que cada um seja quem é sem ser rotulado», que atrai 50 mil visitantes por ano.

A organização eslovaca Integra ficou na terceira posição, com a iniciativa "Louco? E depois?", que quebra estereótipos ao promover a compreensão da saúde mental entre os jovens. 

O quarto lugar foi para Fundação Lilinkoti, da Finlândia, que tem como missão apoiar a saúde mental com os seus jogos inovadores e criativos intitulados “O Mundo da Recuperação”, contando com jogo móvel e um jogo de tabuleiro.

O projeto "Contar histórias para o bem" garantiu o quinto lugar à Animenta, organização italiana sem fins lucrativos que está a desenvolver programas de prevenção e sensibilização para os distúrbios alimentares em escolas de toda a Itália, já tendo abrangido 10 mil alunos.

Os vencedores do segundo ao quinto prémio receberam 9 mil euros cada um.

O CESE considera que «a criatividade e a dedicação dos projetos apresentados revelam o enorme entusiasmo e a forte motivação da sociedade civil para ajudar as pessoas que lutam com problemas de saúde mental e demonstram o seu contributo vital para travar a explosão desta epidemia silenciosa na UE».

 

“A Voz do Autista” em destaque

A Associação Portuguesa Voz do Autista está em destaque na publicação do CESE relativa à 14.º edição do Prémio para a Sociedade Civil. Dada a diversidade dos concorrentes, o órgão consultivo faz referência a alguns dos projetos que foram apresentados à competição.

A Voz do Autista é uma Organização não Governamental de Pessoas com Deficiência, com sede em Aveiro. Esta associação sem fins lucrativos é composta por adultos, pais de crianças autistas e profissionais de saúde/educação que são autistas.

A instituição quer promover a aceitação e inclusão dos autistas nas suas comunidades, desenvolver várias parcerias, lutar pelos direitos dos autistas e ser uma plataforma para dar voz a pessoas no Espetro do Autismo em Portugal.

O Prémio para a Sociedade Civil visa recompensar a «excelência em iniciativas da sociedade civil». Todos os anos, é subordinado a um aspeto diferente do trabalho do CESE. A título excecional, em 2022 o prémio teve duas categorias – Capacitar os Jovens e Sociedade Civil Europeia pela Ucrânia –, tendo o Movimento Transformers, de Portugal, ficado em segundo lugar na área dos projetos juvenis. Em 2021, recompensou projetos que combateram de forma criativa a crise climática. Em 2020, foi dedicado à luta contra a Covid-19, tendo estado entre os vencedores o projeto "Vizinhos à janela", desenvolvido em Oeiras. Em 2019, o tema foi a igualdade de género e a emancipação das mulheres.

*Em Bruxelas, a convite do CESE.