O Presépio ao Vivo de Priscos celebra, este ano, 11 anos de um projeto pioneiro que envolveu mais de 80 reclusos que, ao longo deste período de tempo, vêm trabalhando na construção e na manutenção do Presépio, constituindo a prova de que a confiança e o trabalho reduzem a probabilidade de reincidência. Este ano, a abertura do Presépio está marcada para o dia 13 de dezembro.
O projeto nasceu de um acordo entre a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e a Paróquia de São Tiago de Priscos, traduzindo-se num modelo que se mantém desde 2015, com o Município de Braga a assegurar o transporte dos reclusos, através dos Transportes Urbanos de Braga.
O pároco da Paróquia de São Tiago de Priscos e grande mentor do Presépio ao Vivo, padre João Torres, salienta que, nesse período, mais de 80 reclusos participaram na construção e na manutenção do Presépio ao Vivo de Priscos, e a Brigada de Priscos nunca registou qualquer incidente.
«O resultado deste projeto é difícil de contestar: as pessoas que cumprem pena e recebem confiança, trabalho e acompanhamento respondem com responsabilidade. O Presépio ao Vivo existe há vinte anos e, há onze, abriu a sua construção a quem cumpre pena, num modelo que alia a fé, a cultura e a solidariedade a uma missão de justiça restaurativa e de humanização do sistema prisional», sustenta o padre João Torres.
Para o sacerdote, o envolvimento ativo de cada uma das partes integrantes tem sido a chave para os resultados positivos deste projeto.
«Cada uma das partes assume o seu papel, e é essa articulação que permite que pessoas privadas de liberdade trabalhem, aprendam e recomecem ainda durante o cumprimento da pena», afirmou, acrescentando que «uma pessoa que cumpre pena e que, no dia da liberdade, tem pouco além de uma folha de registo criminal enfrenta um caminho muito difícil. Em Priscos, o caminho começa antes: o recluso chega com um horário, uma tarefa, um chefe de equipa e a responsabilidade de pertencer a um grupo que depende do trabalho de todos».
No Presépio de Priscos os reclusos desempenham funções nas áreas da carpintaria, jardinagem, serralharia, manutenção e construção, contribuindo para a preparação e conservação do Presépio ao Vivo de Priscos. Trabalham em regime aberto, com horário regular, remuneração e acompanhamento técnico e pastoral.
Cada um aprende um ofício e, com ele, hábitos que valem em qualquer emprego: a pontualidade, a disciplina, o cuidado com as ferramentas, o respeito pelos colegas, o sentido de responsabilidade. Ganham ainda algo que a prisão dificilmente dá, uma relação real com a comunidade que os acolhe, feita de conversas, de olhares e de confiança construída dia após dia.
O trabalho é só uma parte do percurso. Os reclusos recebem também formação humanista, ministrada por Mário Robalo, antigo jornalista do Expresso. Ao longo das sessões, quem passou décadas a contar histórias dos outros ajuda estes homens a olhar para a sua própria história, a pensar o que fizeram, quem são e quem querem ser quando saírem. Aprender um ofício dá-lhes com que ganhar a vida, e esta formação dá-lhes razões para a refazerem.
«Ao longo das sessões, quem passou décadas a contar histórias dos outros ajuda estes homens a olhar para a sua própria história, a pensar o que fizeram, quem são e quem querem ser quando saírem. Aprender um ofício dá-lhes com que ganhar a vida, e esta formação dá-lhes razões para a refazerem», explica o pároco.
O sacerdote vinca, com orgulho que «ao longo de onze anos, nunca se registou qualquer incidente no âmbito da Brigada de Priscos. O número fala por si e responde, com factos, ao medo que muitas vezes rodeia a ideia de dar trabalho a quem cumpre pena. Mostra também que a confiança, quando vem acompanhada de orientação e oportunidade, é capaz de quebrar o ciclo do crime e da exclusão».
A Paróquia de São Tiago de Priscos defende que o Estado deve reforçar os incentivos às empresas, autarquias e instituições que acolhem e formam reclusos. Sem esse investimento, o país arrisca-se a ver crescer o número de reincidentes, muitos deles com percursos criminais cada vez mais graves. A experiência de Priscos mostra que existe alternativa, e que essa alternativa é mais humana e também mais eficaz do que a exclusão. É urgente promover uma verdadeira cultura de reabilitação, que reduza o peso social e económico da criminalidade e dê às comunidades razões para confiar.
«Ao longo destes 11 anos, a Paróquia de São Tiago de Priscos investiu milhares de euros em salários, seguros, alimentação e equipamento de proteção individual, para garantir condições dignas e seguras a todos os participantes. Foi um esforço sustentado por uma comunidade pequena, que escolheu fazer da solidariedade uma prática do dia a dia», defende o pároco.
Salienta ainda que «acomunidade local, por sua vez, acolheu os reclusos com respeito e espírito de solidariedade, reconhecendo-lhes o esforço de mudança e o valor do trabalho que fazem».
O Presépio ao Vivo de Priscos continua a inspirar comunidades e instituições e a provar que a justiça pode ser também inclusão, confiança e reconstrução humana.