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«Podemos ter a pretensão de eleger o segundo deputado»

«Podemos ter a pretensão de eleger o segundo deputado»
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Publicado em 29 de setembro de 2019, às 06:00

José Maria Cardoso lidera a candidatura do Bloco de Esquerda por Braga. Não esconde a meta da eleição de um segundo deputado num distrito, em que as principais propostas vão para as áreas da saúde e da mobilidade.

Diário do Minho (DM) - Nas eleições legislativas de 2015, o Bloco de Esquerda esteve perto de eleger um segundo deputado por Braga. Acredita que será possível nestas eleições? José Maria Cardoso (JMC) – A intenção é melhorar o resultado, quer no número de votos quer no número de mandatos. Mas isso não significa que a nossa campanha seja determinada por esse facto. Os partidos têm os votos que possam merecer e, no que nos compete a nós, é fazer com que as nossas propostas consigam chegar às pessoas. É assim que temos estado na campanha e estaremos: com esta força do contacto pessoal, que permite dar uma certa pessoalização à política. E esse contacto direto tem-nos sido muito favorável. Tendo isso como indicador, podemos ter a pretensão de eleger o segundo deputado. Mas aceitaremos qualquer resultado que os eleitores nos queiram dar. DM - Mas tem uma expectativa concreta… JMC - Temos diferentes expectativas, quer a nível nacional quer distrital. No plano nacional, temos a expectativa de aumentar o nosso Grupo Parlamentar. Mas temos um objetivo a par disso: contribuir de forma decisiva para que o PS não tenha maioria absoluta. DM - É a maior preocupação do BE? JMC - A maior é a nossa política. O impedimento de maiorias absolutas não se consegue por decreto, mas por propostas que sejam aceites pelos eleitores. Percebe-se que a direita, eleitoralmente, capitulou, não conta, de certa forma, para o resultado eleitoral e a disputa, pelos dados que são públicos, faz-se no combate à maioria absoluta do PS. DM - Se conseguir evitar que o PS tenha maioria absoluta, o Bloco de Esquerda está disponível para formar governo com os socialistas? JMC - Tudo está em aberto. A priori, não eliminamos nenhuma das hipóteses. Mas devemos deixar as pessoas votar, porque as possibilidades de qualquer acordo, seja de incidência Parlamentar seja de governo, vai depender a força de cada partido. E nós esperamos que o Bloco de Esquerda tenha força suficiente para ter um tipo de exigência num hipotético entendimento. DM - Existe a ideia de que o BE deixou de ser o partido da simples contestação para ser agora também um partido “das contas certas”. Foi a colaboração com o PS que permitiu ao Bloco ganhar consciência da realidade do país? JMC - O Bloco de Esquerda sempre teve responsabilidade sobre os seus atos. E sempre teve a preocupação das contas certas, a começar pelas contas de “casa”. DM - O BE andou muitos anos a defender que a dívida não era para pagar, que tinha de ser perdoada. JMC - E continuamos a defender a reestruturação da dívida. Não podemos continuar a pagar como pagamos uma dívida que nos aniquila. Mas isso não significa que não tenhamos o princípio das contas certas. Temos e vamos continuar a ter. DM - O BE propõe a disponibilização de 100 mil casas para arrendamento a baixo custo. Qual é a margem para o distrito de distrito de Braga? JMC - Não há propriamente uma margem proporcional para cada território.Há é que atender a carências de imediato. Estivemos recentemente num bairro social de Arcozelo, Barcelos, que é propriedade do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, que foi sujeito a obras de reabilitação que melhoraram muito a vida das pessoas. Isto é tipo de intervenção que deve ser feito em muitas das habitações. E temos o caso concreto de um bairro social de Guimarães, onde, desde há muitos, temos reivindicado a realização de obras de reabilitação, sem que nada tenha sido feito.O Bloco defende a criação de um plano de nacional de habitação, que passa muito pela reabilitação, para responder a um dos pilares da democracia, que é a habitação social. Nós temos uma reduzidíssima capacidade de habitação social face às necessidades das populações. DM - Não há oferta disponível por parte da Administração Pública, como é que o Bloco esse plano nacional? JMC - Podem ser feitos protocolos com muitas entidades de recuperação de edifícios. As próprias câmaras podem criar condições para surjam soluções, que aproveitem as muitas casas que estão devolutas e fazem falta a muita gente. DM - O BE defendeu o fim da gestão privada no Hospital de Braga. Não teme que possa não ter sido uma boa opção? JMC - Pelo contrário. Acho que foi uma muito boa opção, por todos os motivos. DM - Segundo as entidades reguladoras e de acompanhamento, a PPP estava a funcionar bem. JMC - Há indicadores que são favoráveis e outros que não são favoráveis. Mas há na nossa posição uma visão ideológica: o Estado tem que garantir o Serviço Nacional de Saúde para toda a gente. Isto não impede que haja hospitais privados e do setor social. Em muitas situações, podem complementar-se, mas tem é que haver uma separação total entre o que é público, o que é privado e o que é social. Não pode é haver promiscuidade nem interseção de interesses. A saúde não pode ser vista como um negócio.Há indicadores que nos mostram que havia recusa, pelo Hospital de Braga, de determinado tipo de tratamentos, nomeadamente medicamentos biológicos e oncológicos, a muitos doentes, que eram encaminhados para o Hospital de S. João, no Porto. Em muitos casos, porque não fazia parte do Caderno de Encargos da PPP. Muitas vezes ultrapassava o tempos de espera para cirurgia e eram emitidos cheques cirurgia para os hospitais da rede do grupo privado que geria o Hospital de Braga. Mas não é só o Hospital de Braga que nos preocupa. DM - Também o de Barcelos? JMC - A construção do novo hospital de Barcelos. Em 2009, o então secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, foi a Barcelos apresentar a estrutura do novo hospital, que estava já no ponto de ser colocado a concurso público. Até hoje não houve qualquer avanço e o Hospital de Barcelos mantém-se em condições perfeitamente deploráveis, ao nível do edifício. DM - O Bloco já foi mais reivindicativo em relação à construção de um novo. JMC - Olhe que não. A última decisão da Assembleia da República relativa ao Hospital de Barcelos, foi a inclusão de uma norma, no Orçamento do Estado para 2019, que obriga à abertura dos procedimentos concursais durante este ano. Estamos à espera que isso aconteça.Também estamos a acompanhar o que se passa no Hospital de Guimarães, que tem um Serviço de Urgência onde o tempo de espera é escandaloso.O próprio Hospital de Famalicão tem algumas carências que importa resolver. Mas também é preciso que os centros de saúde respondam às populações dos diferentes concelhos. Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto e Vieira de Minho há muito tempo que defendem centros de saúde com serviço de urgência básica. DM - Depois de o PCP ter defendido há 4 anos uma rede ferroviária para ligar os quatro maiores concelhos do distrito, o Bloco de Esquerda avançou com uma proposta semelhante… JMC - Não é exatamente assim. O Bloco, há 4 anos, já tinha a ligação a ligação ferroviária para o Quadrilátero Urbano no seu programa. Mas trata-se de uma proposta que não é uma apenas uma necessidade mas também uma obrigatoriedade.A aposta na mobilidade sustentável tem de passar para expansão cada vez mais da rede ferroviária. É uma obrigatoriedade não apenas do futuro, mas também do presente. Como é que queremos contribuir para a descarbonização, para o combate às alterações climáticas e para criar uma outra mobilidade sem a aposta na ferrovia? Viajar de comboio entre Guimarães e Braga, demora duas horas, com 50 minutos de espera em Lousado, para fazer a ligação. Por isso defendemos, no imediato, uma ligação direta entre Braga e Guimarães. É um investimento grande mas urgente. Além disso, defendemos que a linha Barcelos-Porto passe a suburbana, que permite uma maior frequência de comboios, uma melhor qualidade de serviço e mais segurança e um tarifário mais baixo. Perfil José Maria Cardoso tem 58 anos e reside em Barcelos. Professor e dirigente do Sindicato dos Professores do Norte, integra a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda e é membro da coordenadora concelhia de Barcelos e da coordenadora e do secretariado distrital de Braga. Militante do BE desde a sua fundação, foi cabeça de lista pelo círculo de Braga às eleições legislativas de 2002 e segundo candidato em 2005 e em 2009. Concorreu à da Câmara de Barcelos em 2001 e 2013, sendo atualmente deputado municipal.
Autor: Joaquim Martins Fernandes