Espaço do Diário do Minho

A cidadania do trabalho

5 Dez 2022
Narciso Mendes

Fala-se muito em mais salário, menos dias e horas laborais; mais férias, pausas, subsídios disto e daquilo e demais regalias sociais, mas raramente se fala do trabalho em si. Talvez por ainda ser conotado com a escravatura, exploração do homem pelo homem ou, então, por andar a ser condicionado pelos fortes apelos ao ócio e lazer. Daí, ser visto como um aborrecimento repetitivo, cansativo, infindável etc. Enfim, um desperdício de tempo, quando há coisas bem mais agradáveis para serem feitas.

Ora, vivemos num tempo em que o trabalho vem perdendo o fulgor de outrora, em que tudo era braçal, de esforço físico e, às vezes, de sol-a-sol, mas que nos dias que correm é atenuado pelas máquinas robotizadas, ou seja, graças às novas tecnologias. As quais se vão traduzindo não só em alívio para o ser humano, como um auxílio às suas tarefas. Só que, estes avanços tecnológicos, também trouxeram a nova máxima: “não faças hoje o que podes fazer amanhã”. Isto é, o facilitismo e a preguicite aguda, que vão fazendo com que os serviços, por vezes, emperrem.

Com respeito ao trabalho, como fator de cidadania, consta num pequeno livro da minha escola primária a seguinte citação: “a primeira condição imposta aos cidadãos quer como pessoas quer como membros da sociedade, é a do trabalho. Dele nasce a abundância, o bem-estar, a saúde e a alegria de viver. Os ciosos que se recusam trabalhar, em condições e idade para o fazer, tornam-se parasitas”. Este sim, a meu ver, um bom complemento de orientação às Ordens e aos Sindicatos e digno de ser incluído nas outras ‘tretas’ da disciplina escolar de cidadania.

Conheço pessoas, recém-chegadas ao mercado de trabalho, que andam exaustas e depressivas, devido à função que exercem. Pois consideram-na algo penosa, difícil e maçadora. Sobretudo quando se trata de servir os outros, dando como justificação o facto de serem cada vez mais chatos e exigentes. Para além disso, também há quem diga sentir pressão por trabalhar ao lado da entidade patronal, preferindo a função pública onde ninguém a enxerga.

Hoje é assim: sei de gentinha que rejeitou o emprego pelo simples facto de lhe ser vedado o acesso ao ‘iPhone’ durante a laboração. Uma contenção que o empregador, a meu ver, deveria ter alguma legitimidade em usar, dado que se desperdiçam horas em triviais e inúteis conversas, ou no Facebook, que não só prejudicam o serviço, como as distraem nas suas tarefas.

Cito, a propósito, o meu amigo Luís que me contou ter ido a um hospital, do SNS, sujeitar-se a uma cirurgia, tendo-lhe sido ministrada metade da anestesia, uma vez que de um só golpe se tratava. Entretanto, o telemóvel (TM) da cirurgiã tocou e, ciosa por atender a chamada, disse ao seu assistente: – “vai cortando”. Isto, enquanto se voltava para a janela falando com alguém, segundo ele me falou, sobre culinária.

Terminado o bate-papo, olhou para o paciente e disse ao colega estagiário: – “cortaste aí? Oh! Era mais abaixo”. O qual, afoito, logo fez como no velho filme “A Canção de Lisboa”, quando o freguês pergunta ao tagarela do alfaiate: – “então sr. Caetano, e a prova?”.“A prova? Faz-se já aqui ao lado!”. E zás, o resto da anestesia e novo golpe.

Escusado será dizer, que a coisa não ficou perfeita. Daí, que se eu fosse Governo restringia o uso do ‘TM’ e afins, sobretudo em locais decisivos para a vida das pessoas. Dado que só o gosto e a devoção ao trabalho são capazes de aperfeiçoa a obra.

Graças a Deus, não sou cego. Há casos em que noto uma gritante falta de dedicação e atenção ao serviço: em que a hora de entrada é um suplício e a da saída a felicidade, já que permanecer no local laboral é um autêntico inferno. Talvez passe por aí a falta de produtividade de que Portugal, atualmente, padece.

Há quem ache que a desmotivação laboral se deve aos miseráveis salários auferidos em Portugal. Porém, ao que me é dado observar, ela é extensiva a quem aufere razoáveis e, até, bons vencimentos. Ou será que estou errado?

 



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