Espaço do Diário do Minho

Memorando à mudança de um sistema educativo obsoleto – O nosso

24 Nov 2022
Catarina Fernandes

Após 50 anos de escolas espartilhadas em salas de aula que se fracionam em mesas e em cadeiras carregadas de resquícios de um passado distante; escolas envoltas em grades que aprisionam pessoas que nada fizeram para merecer a penitencia, é urgente olharmos para estes lugares, que deveriam ser locais de regozijo, espaços impulsionadores de ânimo e de resposta a curiosidades, e que, em vez disso, se transformaram em aglomerados de indivíduos sem individualidade, comandados por timoneiros sem liberdade. Continuamos a ter salas repletas de palavras vãs que discorrem, horas a fio, numa repetição extenuante, e que voam sem encontrarem dono que as queira agarrar.

Existirá, por certo, uma harmonia sagaz no Universo onde tudo se complementa e faz perfeito sentido. E nós, enquanto seres que habitamos esse Universo, e que fazemos parte de tudo isto, precisamos de perceber o que nos rodeia, e de que forma devemos interagir com esse equilíbrio para que ele se mantenha. A verdade é que temos remado contra a maré, criando uma instabilidade que levou ao enfraquecimento das instituições que víamos, outrora, como pilares de uma sociedade que se quer viva e harmonizada. Tudo isto produto das opções erradas que temos vindo a tomar e que nos penalizam cada vez mais. Também no sistema educativo temos sido vítimas de escolhas menos acertadas. A escola não é um mundo à parte. É, uma parte integrante, e (deveria ser) integradora, desse Universo, e propulsora dessa harmonia.

A sala da aula que bem conhecemos (porque é a mesma, na sua estrutura e na sua essência ideológica, há cinquenta anos), na qual os alunos se sentam em cadeiras pouco confortáveis, durante horas a fio, na qual se exige uma “postura de aprendizagem” (seja qual for o significado da expressão), na qual são passados conhecimentos através de metodologias de tradição transmissiva e teórica, e em que se espera do aluno uma mera capacidade motora de tirar apontamentos em tempo útil, uma memorização de conteúdos rápida, e uma consequente reprodução desses mesmos conteúdos num teste, nunca deveria ter existido. Em vez disso, deveria consubstanciar-se num lugar onde se promove a liberdade, a criatividade, a autonomia e a capacidade crítica e analítica do mundo que nos rodeia.

Não descartando a importância de uma educação de base generalista, nos primeiros anos curriculares, não deveriam os nossos alunos ter uma maior intervenção no seu próprio processo de aprendizagem? Por outro lado, não seria mais benéfico os professores terem o livre-arbítrio de modelarem as suas aulas de acordo com o público com o qual se deparam e que é diversificado, multicultural e pluriemocional? Olhemos para o exemplo do sistema de ensino finlandês, pautado por um nível de sucesso inegável, no qual se consubstancia a importância dos seus bons resultados também na “independência” da construção e do uso do currículo, por parte dos professores. Perante a insistência de seguir escrupulosamente um currículo desenhado para um público homogéneo (que não existe!), e que está inevitavelmente desadequado das suas preferências/vocações, estará o nosso sistema educativo a pensar nas reais necessidades dos nossos alunos e na sua contemporaneidade?

Na Escola do Futuro, o aluno é percecionado como o principal elemento em todo o processo de procura, de experimentação e de aquisição de conhecimentos, e considerado como único; e o professor é valorizado enquanto elemento de suma importância na orientação e na construção de uma sociedade regida por valores substanciais que irão gerar as próximas e futuras sociedades que queremos humanizadoras e niveladoras da harmonia do Universo.

As sociedades são organismos vivos que sofrem constantes mutações. Sendo a escola uma parte vital dessa estrutura social, também ela deve ser um organismo em constante evolução. Um sistema educativo estagnado é um órgão que entra em falência e que afeta todos os outros, e que só poderá reabilitar-se com uma intervenção cirúrgica atempada e eficaz.



Mais de Catarina Fernandes


Scroll Up