Espaço do Diário do Minho

O desafio dos produtores de espaço
10 Mai 2020
Paulo Sousa

Numa decisão que ganha cada vez mais adeptos, várias cidades, em diferentes pontos do globo, decidiram fazer o que a lógica, nas atuais circunstâncias, não determinaria; fecho de várias artérias essenciais, alargamento de passeios, supressão de estacionamento à superfície. De Paris a Bogotá, de Nova Iorque a Barcelona, de Vilnius a Bruxelas, nada será como dantes quando o confinamento perder a sua força e se assista ao regresso em massa das pessoas às ruas.

Aparentemente, estamos a assistir a um paradoxo entre a necessidade de privilegiar o transporte individual para evitar a aglomeração em transportes públicos, e a redução da poluição nas cidades e por via disso, a concentração excessiva dos automóveis, mas vale a pena refletir sobre esta problemática, olhando de forma indistinta para as necessidades em concreto. Se numa cidade como Paris, a autarca Anne Hidalgo tomou a decisão de devolver 50 quilómetros de vias aos peões e às bicicletas e se em Oakland, nos EUA, 10 por cento das ruas foram fechadas aos carros, é bom de ver que “as dificuldades de prescindir do transporte individual”, enumeradas por Nunes da Silva, professor catedrático, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, são uma manifestação mais reativa do que proativa. Arquitetos e académicos como Avelino Oliveira, Luís Pinto de Faria e João Castro Ferreira, conduzem o raciocínio para a dimensão pragmática: “supressão de vias de trânsito e/ou estacionamento à superfície”, desafiando os produtores de espaço a irem mais longe. Os que defendem uma transição acelerada para a mobilidade sustentável estão a ganhar adeptos em detrimento dos que sugerem uma redução na ambição de reduzir a carga. Mas na verdade, a tendência é ainda muito ténue, já que a maioria não está disponível para abandonar automóveis e transportes públicos como autocarros e comboios. Estamos, assim, perante uma equação onde cabem direitos e deveres, excessivos na primeira e desleixados na segunda. A solução é a mudança de mentalidade onde pesa atualmente a cultura lasciva dos cidadãos de uma forma geral, ancorada em diferentes pesos: o sentido de posse do conforto, a ausência de uma cultura de educação física e a ausência de disponibilidade para dizer Sim às políticas que lhe retirem parte da liberdade de circulação. O que fazer? Muitos autarcas estão a preferir intervenções nas zonas de habitação em detrimento das zonas centrais como é o caso de Braga e outros há que preferem harmonizar de uma forma equilibrada as diversas tendências, incentivando, com ajudas, os utilizadores de bicicletas como é o caso das cidades francesas e espanholas. O que fazer? – O primeiro ataque é anular dentro das cidades as redundâncias que ainda existem, suprimindo artérias onde se circula sem necessidade (numa espécie de pescadinha de rabo na boca);  num segundo momento deve-se privilegiar os que habitam nas periferias, oferecendo aos mais novos bicicletas para que se possam deslocar para as escolas e para o lazer, destacando, aqui, os mais necessitados como alvo preferencial. Um desafio que torne vulgar o uso de bicicleta como o fazemos com os computadores ou os smartphones e capaz de contaminar os mais relutantes. Um terceiro vetor deve destacar as ciclovias instantâneas que estão a ocupar os espaços deixados vagos pelos automóveis neste período de confinamento, o que conduziria a uma inversão nas normas de circulação, já dispostas no Código de Estrada, mas ainda insipiente, na sua prática: é o carro que se adapta à presença das bicicletas e não o contrário. Seja qual for a política a adotar, precisamos de viver a cidade, gozar do seu privilégio como espaço de atração humana, invertendo o que Italo Calvino previa em “As cidades Invisíveis” :

A cidade – insistes em perguntar. – Vimos cá trabalhar todos os dias – responder-te-ão uns, e outros: – Voltamos cá para dormir. – Mas a cidade onde se vive? – perguntas. – Deve ser para ali – dizem, e uns erguem o braço obliquamente na direcção de uma incrustação de poliedros opacos, enquanto outros indicam para trás das tuas costas o espectro de outras cúspides”.



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