“Se você quer mudar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior”. Dalai Lama, líder budista tibetano - (1935 - ainda vivo)
Ponto um - O meu “amigo Zé” é um socialista dos quatro costados. Tem um bom salário, boas condições de trabalho, uma conta bancária supostamente recheada e uma vida aburguesada. Como bom socialista, tem preocupações sociais na alma, coisa que só a esquerda sente e cultiva e pelas quais pugna sem vacilar. Mas, claro, pensa dessa forma, como sempre, com o dinheiro dos outros. Com o deles, a história tem outros bicos.
Ponto dois - Além do “amigo Zé”, conheço o António, o Francisco, o Manuel e tantos outros que estão nas mesmas condições. Ou seja, socialistas de barriga cheia e de vida desafogada, mas sempre orientados pelo radar ideológico em defesa dos desafortunados da vida. Nada a opor a esta narrativa encorpada e muito bem sentida. Eu sei! Num contexto “ideológico progressista”, os camaradas vêem as coisas por um prisma tridimensional e egocêntrico: primeiro eu, depois os meus e, no final, as tais preocupações sociais para adornar o cenário e para se estar bem com a própria consciência. Às vezes, essa prega partidas, quando se expõe na praça pública.
Ponto três - Como é bom e bonito ser socialista! O mundo visto pelo caleidoscópio das cores rosas e escarlates, formando imagens auspiciosas com contornos doces que caem bem no goto dos mirantes. Tudo gira numa policromia melífica que arrebata as almas mais insensíveis, perante os dramas que vão aparecendo no mundo real. Dramas que deveriam pertencer, simplesmente, ao reino das utopias imateriais e que atentam contra a vulgar existência deste ser que se vangloria por coisa pouca. Tudo seria, entretanto, diferente se as consciências dos capitalistas-funcionarios públicos da classe média-alta e dos neo-liberais usurpadores estivessem envolvidas só no regime distributivo tão defendido pelas mentes daquela gente imbuída pelo espírito de uma solidariedade bacoca que se agarra a uma democracia de direitos e a um estatismo anacrónico.
O mundo, assim, seria, claramente, melhor, mais justo e mais fraterno? Fica a pergunta ao menos. A resposta deposita-se nas sombras de uma vivência faz-de-conta que ilude os menos avisados ou quem pretenda servir de marionete neste jogo de “engana meninos”.
Ponto três - O “amigo Zé”, é um bom leitor e um crítico feroz dos meus trabalhos. Daí não vem mal nenhum ao mundo. Não perde um artigo que eu, modestamente, escrevo neste Diário que me vai dando algum espaço para dizer coisas, certamente banais. Sempre com o lápis azul afiado e pronto a selecionar, com rara subtileza e não menos assertividade umas notas de rodapé, em jeito de crítica acelerada, que lhe carburam a sua veia “troll” para tentar moer-me a inspiração fugaz, dando vazão ao seu gáudio pessoal e de uns tantos correligionários dispostos a corroborar em tão eloquente argumentação. Dá gosto ouvi-lo naquele seu jeito aparentemente despretensioso, mas de olhar titubeante e incomodado!
Ponto quatro - Até ao aparecimento da geringonça, ainda no tempo de Passos Coelho, esse salafrário neo-liberal ou o diabo em pessoa, que ia destruindo o regime e o país, os bons costumes e a tolerância, os meus artigos eram rotulados de redondos. Agora, os artigos da mesma igualha que vão sendo publicados semanalmente têm “muita asneira”. Será que lhe ferirão os pontos ultra-sensíveis da sua reforçada e insofismável convicção socialista? O que sei é que há eco nesta apreciação refinada por uns tantos (poucos) do mesmo coro.
Mas, no fundo, no fundo, o “amigo Zé” e a restante comandita alinha no ditado que a minha saudosa sogra recitava em momentos de algum conforto familiar: “quem tem dinheiro quebra penedos, quem não tem quebra os dedos”. E eles, os Zés, quebram penedos, mas sempre com as preocupações sociais presentes na mente, no coração e, até, na alma. Isto não bate certo!
Autor: Armindo Oliveira