Espaço do Diário do Minho

Obrigado Fundação do Futebol – Liga Portugal

1 Fev 2020
António Maria Martins Melo

Por estes dias, Braga viveu as emoções de mais uma Final Four da Taça da LIGA. De grata recordação para a cidade! Para além do aspecto desportivo, no âmbito de uma parceria estabelecida com a Fundação do Futebol – Liga Portugal, foi notório o relevo dado à vertente da Responsabilidade Social, com o compromisso de se utilizar o Futebol como veículo de inclusão social. Este ano, assumiu o centro das atenções a pessoa com deficiência intelectual, uma das áreas de maior sensibilidade social.

E, por isso, a LIGA também procurou destacar uma das manifestações desportivas com maior impacto social, a nível planetário, Os Jogos Mundiais Olímpicos Especiais, que são diferentes, como se sabe, dos Jogos Paralímpicos. Foi, por isso, que passaram pela nossa cidade numerosos atletas do Special Olympics Portugal (SOP), movimento que está integrado no Comité Olímpico de Portugal. Um dos momentos mais altos desta passagem foi o jogo de futebol que disputaram com alguns jovens da Appacdm de Braga, momentos deveras muito gratificantes para eles e para quem estava na bancada da FanZon (mini-estádio) da Avenida Central.

O movimento Special Olympics, fundado por Eunice Kennedy Shriver, irmã do saudoso presidente norte americano John Kennedy, existe desde 1968, ano em que se realizou a primeira olimpíada especial, na cidade de Chicago. O lema deste movimento é inspirador para todos nós: «Posso vencer. Mas se não conseguir, que seja corajoso para tentar». De referir ainda, a este propósito, que os Jogos Olímpicos, que este ano se vão celebrar em Tóquio, no Japão, tiveram a sua origem na Grécia antiga, no início do séc. VIII a. C.

O certame desportivo, que reunia os melhores atletas gregos, já naquela época não se esgotava apenas nas provas desportivas. Eles eram muito mais que isso. Com efeito, os jogos eram uma ocasião propícia para a unificação de povos distantes e diferentes, num hino à paz. Um escritor daqueles tempos, Isócrates, num passo do seu célebre Panegírico 43, escrevia que aqueles certames desportivos legaram-lhes o hábito «de nos lembrarmos do parentesco recíproco, de nos tornarmos no futuro mais benevolentes, de renovarmos os laços de hospitalidade de antanho e de contrairmos outros novos».

Também em boa hora a Fundação Futebol – Liga Portugal procurou, em estreita ligação com a comunidade local, a cidade de Braga, dar expressão a este espírito de solidariedade que naturalmente emana de todo o ser humano de boa vontade: as pessoas nasceram para viver em sociedade, como desde há muito o afirmou Aristóteles, no seu tratado Política (1253a). Também por isso, naturalmente, os vínculos que se estabelecem entre as pessoas redundam numa solidariedade fraterna. E quando esse vínculo se torna em compromisso inabalável, num porto de abrigo seguro, surge a Família, a célula fundacional da sociedade.

Uma realidade segura que pode arrastar-nos até à evocação do sintagma «com o pé em terra firme»: terra, solo, enquanto sinónimo do vocábulo latino solum. E é assim que, com raízes latinas e por via francófona, chegamos à palavra solidariedade. É daqui que emerge a sensibilidade para o auxílio aos mais carenciados, àqueles que vivem nas franjas da sociedade, num compromisso total, mas de mútua responsabilidade, numa comunhão de interesses: mais do que oferecer o peixe, é necessário ensinara a pescar. E é aqui que entra a colaboração de quem é objecto da solidariedade, torna-se imperioso cativar o seu espírito. Para tal, o único caminho é a via estreita da humildade, também ele um vocábulo com origem latina: humus, isto é, solo, terra; daqui terá derivado homo, que significa Homem, o ser humano. Humildade de quem dá, mas também humildade de quem recebe.

De condição mortal e, por natureza, humilde, o homem só alcança a sua realização em sociedade, como se vê. E é dessa essência social que decorre a solidariedade, que nos leva a estabelecer laços duradoiros com as pessoas que vivem à nossa volta. Daqui resulta a tomada de consciência de um existir marcado pela interdependência. No centro da preocupação solidária está uma pessoa em concreto, o Homem, enquanto pessoa, enquanto ser uno e irrepetível, com natural direito a uma vida digna. A promoção da dignidade humana é, assim, o principal objecto da solidariedade. Sendo esta uma acção de natureza humana, ela emana do livre arbítrio do Homem, assumindo-se como um acto voluntário (ex voluntate), expressão do seu querer. Por isso é que a solidariedade, por essência, é algo praticado por voluntários, isto é, por alguém que age livremente, sem obrigação.

É assim que nos nossos dias, do voluntário individual se tem passado para uma acção de natureza colectiva, através de uma instituição empresarial. A expressão de uma pequena comunidade em prol de outra. E tudo isto a propósito do acto de grande generosidade praticado pela Fundação Futebol – Liga Portugal, em prol da Appacdm de Braga. Por isso, o nosso muito obrigado.



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