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O povo humilde da vila de S. Torcato, em Guimarães, nunca abriu mão do seu “santinho” e ergueu-lhe um majestoso templo, ao longo de quase dois séculos, que foi, agora, elevado à dignidade de Basílica por decisão do Papa Francisco.

Rui de Lemos
19 Jan 2020

O “santinho” que dá nome à vila pulsa com intensidade no coração do povo. Sempre assim foi ao longo dos tempos, com vários episódios que comprovam que o povo de São Torcato fica para a história por ter resistido a Guimarães e a Braga nas tentativas de tirar o santo da vila. E ainda hoje que ninguém ouse beliscar “S. Torcatinho”. Aquelas duas formas carinhosas como o povo verbaliza o nome de S. Torcato traduzem o fervor do apego e devoção, mas contêm também a garra de quem não abre mão, por nada, do seu «precioso tesouro».

Em tempos idos, em 1501, quando D. Manuel I ordenou a trasladação do corpo do santo do Mosteiro da localidade para a Colegiada de Guimarães a resistência popular não deixou. A oposição do povo voltou a impor-se ao Arcebispo de Braga, em 1597, quando ordenou que o santo fosse levado para Braga. E em 1637, quando outro Arcebispo visitou São Torcato, o povo voltou a temer o pior e a bater o pé às intenções.

«O povo de S. Torcato sempre teve e tem no “santinho” o seu valioso tesouro. No fundo, nós somos os guardiões desse tesouro valiosíssimo guardado no Santuário, agora elevado à dignidade de Basílica», resume o juiz da Irmandade, Paulo Novais. Esta é, de resto, uma característica identitária dos vimaranenses que «sempre mostraram grande apego ao seu espólio e são defensores intransigentes do que é seu», observa a diretora do Museu Alberto Sampaio, Isabel Fernandes, que guarda, num pequenino relicário a única parte do santo que conseguiu sair de S. Torcato. Trata-se de um calcanhar, que lhe foi arrancado à dentada, por volta de 1637, pelo mestre-escola da Colegiada da Oliveira, Rui Gomes Golias, que não resistiu ao ímpeto de levar o “bocadinho” para a sua capela.

1825: Início da Construção do Santuário

Desenvolveu-se de tal forma o culto a São Torcato que houve necessidade de edificar um Santuário mais amplo e em lugar mais acessível do que a pequena Capela na Igreja Paroquial, onde até então se conservou a venerada relíquia do corpo incorrupto.

As obras começaram em 1825, no sítio chamado “Penedos de Maria do Monte Maio”, com projeto do arquiteto vimaranense Luiz Ignácio de Barros Lima. O templo voltou a conhecer outro projeto internacional, em 1868, do arquiteto Louis Bohnfeld e sofreu novos ajustes, em 1894, concebidos e acompanhados pelo arquitecto Marques da Silva. Os trabalhos foram depois supervionados pela sua filha e genro.

Peregrinos e fiéis exultam de júbilo

A decisão do Papa Francisco de elevar o Santuário de S. Torcato à dignidade de Basílica encheu de júbilo os mais de 750 mil peregrinos e fiéis que anualmente acorrem a este centro de culto.

«O anúncio da decisão provocou uma alegria imensa, incontida e emocionante em todos os membros da Irmandade e que é, seguramente, partilhada e celebrada pelos mais de 750 mil peregrinos e fiéis que acorrem a este centro de culto, conforme contabilizou o senhor Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, na carta que enviou ao Vaticano, pedindo esta distinção por nós solicitada», ilustra e afiança o juiz da Irmandade, Paulo Novais.

O anúncio público foi feito pelo próprio D. Jorge Ortiga, no passado dia 3 de novembro de 2019 e a festa oficial está agendada para o próximo dia 27 de fevereiro, assinalando também a celebração do “Dia de S. Torcato” no calendário litúrgico da Arquidiocese de Braga. «Ai, que felicidade tamanha. É mais um milagre do nosso santinho», corrobora Maria Adelaide, de mãos ao alto, acabada de tocar na urna para pedir proteção e auxílio para um familiar molestado por «doença ruím».

A elevação do Santuário de São Torcato a Basílica Menor encerra também «novas responsabilidades»para a Irmandade, fundada em 1693 para perpetuar o culto e honrar o santo, «mantendo sempre uma lâmpada de azeite acesa». «Todos trabalhamos muito entusiasmados porque gostamos imenso do nosso santo e da nossa terra, mas sabemos bem que esta elevação nos redobra as responsabilidades. O templo é igual, mas a nossa responsabilidade aumenta para manter estas portas de coração aberto a todos os que nos procuram e visitam, garantindo melhores condições de acessibilidade e conforto em permanência», considera Paulo Novais.

Assim, a Irmandade de S. Torcato está já a realizar a obra de construção e instalação de um elevador entre o parque de estacionamento e o adro do santuário, que vai passar a servir os fiéis e peregrinos com mobilidade reduzida ou condicionada. O novo investimento, supervisionado em permanência por Manuel Carvalho, responsável pela coordenação da obra, deverá ser inaugurado na festa do próximo dia 27 de fevereiro. Paralelamente, os responsáveis da Irmandade desejam «melhorar o conforto de alguns bancos, intervir na melhoria de isolamento térmico e outros aspetos de valorização do templo», resumiu Paulo Novais.

Um templo imponente que demorou a construir

A imponência do Santuário de S. Torcato destaca-se na paisagem. É um majestoso templo, todo construído em granito, extraído nos arredores, num local denominado Pedra Fina, e que demorou quase dois séculos a edificar.

«Curiosamente, este Santuário é um edifício majestoso e mesmo não tendo sido desenhado e concebido para ser uma Basílica, já tinha e tem todas as condições para cumprir essa função. Neste aspeto, não é necessária qualquer intervenção, mas para nós este não é um ponto de chegada, antes um novo ponto de partida. Por isso, vamos continuar a melhorar todas as condições de acolhimento e espiritualidade, além de continuarmos a estudar profundamente aquilo que foi a vida e obra de S. Torcato», ilustra e revela o juiz da Irmandade. Paulo Novais acrescenta que este ano a instituição vai repetir os colóquios do ciclo “Olhares sobre S. Torcato”, que iniciou no ano passado, tendo também encomendados vários estudos a historiadores, investigadores e especialistas, além de estar a ser concluído outro estudo que vai mostrar a singularidade da Romaria Grande a S. Torcato.

Félix Torcato ou São Torcato foi Bispo de Braga, Porto e Dume, em 693, sendo o último residente em Braga até à elevação arquiepiscopal em 1070, devido à invasão muçulmana. Foi morto pelo general muçulmano Muça, a golpe de espada. O seu corpo foi encontrado incorrupto, no século VIII, no local onde, rezam testemunhos, rebentou uma fonte de água cristalina que ainda hoje se conserva, na Capela da Fonte do Santo.

Os dados existentes não permitem, ainda, preencher a vida e obra de S. Torcato entre os séculos VII e XX, sendo esta a lacuna que aquela instituição pretende ver debelada. Certo é que Félix Torcato é um dos mais antigos mártires e santos da Península Ibérica, com imensas manifestações de fé popular por parte de verdadeiras multidões de peregrinos ao longo da história. Mas se a romaria em sua honra é “grande”, o seu santuário é muito maior.

Altivo, com o edificado do vale em redor, o Santuário de S. Torcato é um templo que exibe uma variedade de elementos clássicos, góticos, renascentista e românticos. Demorou quase dois séculos a construir e foi sendo alimentado, ao longo do tempo, pela generosidade dos devotos e outras oferendas, além de uma escola de cantaria da Irmandade, criada com o objetivo de ensinar a trabalhar o granito e também arranjar mão de obra para as obras.

As suas dimensões, na globalidade, são consideráveis: nave central com 57.5 x 17.5 m2 e com uma altura até aos telhados de 26.5 m; transepto com 37.1 x 11.4 m2; e torres sineiras com 7.5 x 6.3 m2 e aproximadamente 50 metros de altura.

A fachada simétrica é constituída por duas torres esbeltas e um corpo central. As torres quadrangulares contêm janelas de dimensão considerável. Em cada torre desenvolve-se uma escadaria interior em cantaria de pedra, terminando numa laje que dá acesso aos sinos. A finalização das torres é realizada por intermédio de pirâmides hexagonais, também em cantaria de pedra, onde se podem observar trabalhos de excelente decoração ornamental. No corpo central da fachada destacam-se, entre outros, uma rosácea com 2.2 metros de diâmetro e, por cima desta, uma galeria a ligar as torres.

Segundo o historial da construção, uma torre provisória tinha sido já construída em 1857, mas foi em 1877 que recebeu os 14 sinos do atual carrilhão. O Santuário tem a forma típica da cruz latina, com centralidade no altar-mor.

Dia oficial da festa vai mostrar a singularidade do povo de S. Torcato

O que torna a vila de S. Torcato única é o seu “santinho” e o seu povo. Esta singularidade estará no centro das cerimónias oficiais da elevação do Santuário à dignidade de Basílica Menor, no próximo dia 27 de fevereiro.

«Este é um momento com um significado extraordinário na vida desta comunidade e queremos que seja celebrado de forma singular. Toda a gente está muito feliz pela graça que o Santo Padre nos concedeu e isso será muito evidente nas cerimónias oficiais», afiança o juiz da Irmandade, Paulo Novais. De resto, não foi por acaso que a data escolhida tenha sido a que coincide com a tradicional “Feira dos 27”, mas porque «este é o dia que vai mais fundo e mais longe nas nossas raízes e tradições populares», sustenta Paulo Novais.

Milhares de agricultores e devotos de S. Torcato reúnem-se anualmente na “Feira dos 27”, que este ano será, ainda, mais especial. Trata-se de uma festa única, instituída com o objetivo de perpetuar o nome do santo que a vila ostenta, uma vez que terá sido a 27 de fevereiro que S. Torcato foi morto. Mas os tradicionais festejos têm também como principal objetivo a mostra e comercialização de gado, exibindo a riqueza do mundo rural e das suas gentes. Os melhores exemplares de várias raças passam pelo terreiro frontal ao santuário, exibindo o orgulho dos criadores que preparam os seus animais durante todo o ano, que os ornamentam com todo o brio e com o melhor que possuem.

Num vale de agricultura viva, além dos animais a concurso, outros fazem questão de trazer também as ‘chamadeiras’ mais vistosas e trajadas a rigor, que se exibem a plenos pulmões. Um frenesim de agricultores e visitantes, com venda de utensílios e outros produtos agrícolas, que emprestam um colorido ímpar à vila.

Na festa oficial da elevação do Santuário à dignidade de Basílica Menor, além das várias entidades religiosas, civis e militares, entre muitos outros convidados, todas as coletividades da vila estão convidadas a participar na eucaristia solene, pelas 10h00, que será presidida pelo Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, e abrirá com a interpretação do hino de S. Torcato, que será entoado pelas crianças do Agrupamento de Escolas do Vale de S. Torcato. A atuação dos Ranchos Folclóricos e os cantares ao desafio também não vão faltar.

Elevação a Basílica aumenta procura

Fruto da elevação à dignidade de Basílica Menor, o Santuário de S. Torcato já sente a procura de mais peregrinos e visitantes. «Já estamos a notar uma maior afluência ao “santinho” de pessoas que vêm de fora depois de tornada pública a elevação a Basílica», assinalam os responsáveis da Irmandade.

A comemoração oficial do “Dia de S. Torcato” inclui, ainda, um concerto de música clássica, pela Orquestra do Norte, no dia 28 de fevereiro.

Romaria Grande é a festa maior

A maior e mais concorrida festa em honra de São Torcato é a “Romaria Grande”. Celebrada sempre anualmente no primeiro domingo de julho, dura três dias e comemora a trasladação do corpo incorrupto do santo, ocorrida em 4 de julho de 1852, do velho mosteiro para o santuário.

A Romaria Grande é uma das maiores festas do Entre-Douro-e-Minho e de Portugal.

Museu guarda acervo e tesouros

A Irmandade de S. Torcato tem ainda preocupações com a sua história e com a sua tradição, estando a desenvolver o seu Museu dotando-o de valências em função do seu enorme e rico acervo. No espaço encontram-se alguns “tesouros”, como o primeiro e grandioso altar de madeira entalhada que guardava a urna do santo e a cozinha antiga e original dos irmãos.




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