Espaço do Diário do Minho

Guimarães terra sacra
22 Jun 2019
Florentino Cardoso

Sob este título pretendemos escrever neste jornal uma série de artigos de opinião, com o objetivo de destacar os recursos patrióticos e espirituais de Guimarães e com base neles formular ideias que permitam potenciar e valorizar o seu melhor aproveitamento nas áreas do turismo cultural e religioso.

Uma análise aos números municipais do turismo divulgados pelo INE e relativos ao ano de 2017, permite perceber que a realidade da ocupação hoteleira em Guimarães está muito distante da do Porto e de Lisboa. A taxa líquida de ocupação por cama em Guimarães foi de 38,4%, em comparação com 62,8% em Lisboa, 58,3% no Porto e 47,1 % em Braga, sendo a média nacional de 48,9 %.

Ao nível de dormidas, Guimarães registou 312.000, Lisboa 12.500.000, Porto 3.800.000 e Braga 525.000. Isto mostra à evidência que o desenvolvimento do turismo em Guimarães não é comparável a Lisboa, nem ao Porto. Infelizmente, a ocupação hoteleira em Guimarães nem sequer supera a média nacional!

Por outro lado, segundo notícia publicada no Jornal de Notícias de 22/01/2019, o Paço dos Duques de Bragança foi o museu mais visitado no Norte, em 2018, com 421.207 entradas, mais 44.007 que no ano anterior. Como todas as pessoas que entram naquele espaço comunicam a sua nacionalidade, foi possível perceber que em 2018 houve 267.000 visitantes estrangeiros, representando 63% do total. Isto significa que aquele espaço acolheu 1.152 pessoas por dia, o que se traduz num registo muito animador!

Porém, a realidade continua a demonstrar que Guimarães ainda se mantêm como um destino excursionista, ou de “touring cultural e paisagístico“, inserido numa rota de conteúdo abrangente e diverso, em que a rota ou o circuito são, em si mesmo, a essência do produto.

Isto quer dizer que os visitantes de Guimarães não têm como alvo a própria cidade, mas sim um circuito abrangente e diverso em que a cidade de Guimarães (com a visita ao Paço dos Duques) está integrada.

Que fazer para Guimarães alterar este seu perfil no mercado e evitar a “turismofobia” que se começa a instalar nalgumas mentes?

Para entrar num ciclo novo de desenvolvimento turístico e registar um crescimento sustentado e acima dos seus competidores diretos, a cidade de Guimarães precisa, em primeiro lugar, de estimular o crescimento da sua capacidade de alojamento hoteleiro, para se afirmar, ao lado do Porto, como um centro de distribuição de turistas ou placa giratória para as cidades da região norte mais próximas.

E em segundo lugar, assumir o novo paradigma do chamado “turismo de experiências”.

Os números divulgados pelo INE mostram à saciedade que o património museológico de Guimarães tem procura e que esta se dirige essencialmente àquele que se encontra dotado de melhor estruturação e visibilidade, como é o caso do Paço dos Duques de Bragança.

Ora, no caminho percorrido a pé pelos inúmeros visitantes da cidade encontram-se também algumas igrejas e espaços geridos por instituições religiosas que constituem autênticos tesouros arquitetónicos e que albergam objetos de elevado valor histórico e artístico.

Este património religioso, porque gerido por diversas entidades, não se encontra devidamente estruturado para constituir uma oferta apelativa aos inúmeros visitantes nacionais e estrangeiros que demandam a Cidade.

Na falta de uma visão estratégica municipal direcionada para o aproveitamento turístico deste património, parece-nos que esse trabalho tem de ser iniciado e desenvolvido pelas instituições religiosas vimaranenses encarregadas de gerir o património arquitetónico e museológico religioso mais valioso da Cidade, dentro de um espírito de cooperação que permita criar sinergias e dinâmicas inovadoras.

Como muito bem disse Graça Poças Santos, nas III Jornadas Luso-Galaicas de Turismo Cultural e Religioso, realizado em Guimarães em 4 e 5 de Outubro de 2007, “o segmento que mais tem crescido nos últimos tempos em toda a Europa e no mundo é o turismo religioso”.

Ainda a propósito de turismo religioso e da sua importância, convém recordar as palavras de Zita Seabra na sua intervenção nesse evento: “O laicismo não pode ser a negação da nossa identidade cultural ou da nossa história. Hoje os turistas querem cultura e turismo religioso, mas em Portugal ainda não percebemos isso. O turismo cultural e religioso pode fazer a diferença, trazer uma grande riqueza ao turismo nacional e contribuir para a diversidade”.



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