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Edição de 2018 do projeto “Desencaminharte” deixou peças nos dez municípios do distrito de Viana do Castelo.

Luísa Teresa Ribeiro
8 Mai 2019

Dez obras de arte em outros tantos lugares convidam à descoberta das paisagens singulares do Alto Minho. Fruto da edição de 2018 do projeto “Desencaminharte”, estas peças dão corpo a um roteiro que passa pelos dez municípios do distrito de Viana do Castelo. O desafio é encontrar arte em locais surpreendentes.

Vista do Miradouro dos Socalcos, em Sistelo, Arcos de Valdevez. Foto de Miguel Viegas.

Em qualquer outro lugar, a chuva seria um incómodo. Ali, no Miradouro dos Socalcos, em Sistelo, Arcos de Valdevez, os pingos grossos são apenas um detalhe insignificante. A atenção está totalmente concentrada na fabulosa paisagem envolvente: os socalcos que tornam o “pequeno Tibete português” cada vez mais procurado, dois núcleos habitacionais incrustados num manto verde e a montanha que se agiganta mesmo em frente. Virando as costas ao vale, avista-se um mastro e uma bandeira amarela, da mesma cor que o tojo em flor. «A paisagem não tem pertença», pode ler-se numa das seis bandeiras espalhadas pela freguesia, que compõem a instalação “A Paisagem é”, de Fernanda Fragateiro.

Instalação “A Paisagem é”, da autoria de Fernanda Fragateiro. Foto de Miguel Viegas.

Esta é uma das dez obras de arte que resultam da edição de 2018 do projeto “Desencaminharte”, subordinada ao tema “Arte aplicada ao lugar”. As restantes nove estão espalhadas por todo o Alto Minho, em lugares igualmente fascinantes.
Filipa Frois Almeida, membro do coletivo HODOS, responsável pelo programa do projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alto Minho (CIM Alto Minho), explica que o objetivo definido desde o início do planeamento desta iniciativa foi «desenvolver trabalhos que valorizassem a paisagem», uma vez que a região possui «locais incríveis em termos de natureza».
Esta responsável adianta que a ideia foi criar «peças com alguma utilidade». A meta estabelecida foi que as obras de arte funcionassem como «leitores de paisagem». «Não fazia sentido rotulá-las de miradouros. O que se pretendia é que fossem peças que ajudassem a ver a envolvente natural de outro modo. Que ajudassem a ver, a observar, a sentir, a tocar, mas sempre de um modo aplicado à especificidade do local onde iríamos intervir», conta.

“Janela”, autoria de João Mendes Ribeiro, está em Deocriste – Senhora do Crasto (Viana). Foto de Filipa Frois Almeida.

No âmbito de uma visita para dar a conhecer as obras de arte instaladas nos dez municípios do distrito de Viana do Castelo, a arquiteta refere que as obras valem como um conjunto, «pelo roteiro que se cria, que liga pontos diferentes e convida a descobrir os lugares entre elas e a ler o espaço de maneira diferente».

 

Projeto “Desencaminharte” deixa legado no território

“Abrigo”, da autoria dos FAHR 021.3, está em Lanhelas (Caminha). Foto de Filipa Frois Almeida.

Dez obras espalhadas pelo território, um livro e um filme é o espólio que a segunda edição do projeto “Desencaminharte” deixa para a comunidade.
Depois da edição de 2017, em formato festival, marcado pela apresentação de obras de arte temporárias, a ideia que presidiu à edição de 2018 foi apostar num modelo «diferente», de forma a «deixar um legado que se perpetuasse no tempo».
A programação ficou a cargo do coletivo HODOS, constituído pelas equipas FAHR 021.3, depA e STILL urban design, a partir de um convite da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho (CIM Alto Minho).
Filipa Frois Almeida, membro da equipa da coordenação geral do projeto, explica que uma das primeiras premissas definidas foi que deveria haver uma peça permanente em cada concelho.
Cada município sugeriu três lugares para a implantação da obra de arte, indicando a sua localização predileta. «Não queríamos que fossem locais no centro urbano. No caso de serem, deveriam ter uma componente natural interessante, onde fizesse sentido intervir», explica a arquiteta.

Miradouro de Labrujó e Rendufe, em Ponte de Lima, recebeu a obra de André Banha. Foto de Filipa Frois Almeida.

Os locais foram definidos após um périplo pelo território. Paisagem Cultural de Sistelo (Arcos de Valdevez), Lanhelas (Caminha), Porta de Lamas de Mouro (Melgaço), Castro de São Caetano, Longos Vales (Monção), Caminho das Piçarras, Romarigães (Paredes de Coura), Choupal de Ponte da Barca (Ponte da Barca), Miradouro dos Socalcos de Labrujó e Rendufe (Ponte de Lima), Mosteiro de Sanfins (Valença), Miradouro da Senhora do Crasto, Deocriste (Viana do Castelo) e Parque de Lazer do Castelinho (Vila Nova de Cerveira) foram os lugares eleitos.

Pablo Pita criou a peça “Barca”, que pode ser encontrada em Ponte da Barca. Foto de Filipa Frois Almeida.

«Foi um trabalho muito próximo com os municípios. Tivemos o cuidado de os envolver numa relação muito íntima com este projeto, para que as pessoas o acarinhassem, já que estão em causa obras de arte que ficam no território», afirma.
Esta responsável enfatiza a preocupação com a ligação à comunidade. «Regra geral, as pessoas têm abraçado este projeto com carinho. Como temos envolvido muita gente local nesta caminhada, as pessoas percebem o projeto e sentem que faz sentido», assegura.
Em relação aos artistas, FAHR 021.3, depA e STILL urban design asseguraram uma obra de arte cada um. Depois, foram convidados outros autores, de forma a haver «um grupo bastante variado e heterogéneo, desde nomes consagrados, jovens, artistas, arquitetos, mulheres e homens».
Filipa Frois Almeida admite que, no início, não sabiam se os convidados iam aceitar, uma vez que os valores envolvidos não eram muito significativos. Apesar disso, Fernanda Fragateiro, Dalila Gonçalves, Pablo Pita, André Banha, Barão-Hutter, João Mendes Ribeiro e Gabriela Albergaria aceitaram o desafio e formou-se um «grupo fantástico de autores», que viveu uma luta contra o tempo para conseguir concretizar o projeto num ano.

 

Artistas querem assegurar continuidade do “Desencaminharte”

“A torre”, dos STILL urban design e Miguel Seabra, está em Longos Vales (Monção). Foto de Filipa Frois Almeida.

Terminada a edição de 2018 do “Desencaminharte”, os artistas querem dar continuidade ao projeto. «Não queremos que este seja só um projeto pontual, que aconteceu e fica por aqui. Estamos a trabalhar no sentido de que o projeto tenha continuação. Este é o sonho que temos», afirma Filipa Frois Almeida.
Esta responsável refere que os artistas querem que o projeto continue para que se possam convidar «cada vez mais autores de diferentes áreas e de diferentes experiências», que tragam «a sua visão para os locais».
Em relação à periodicidade, a arquiteta considera que um ano é pouco tempo para desenvolver um projeto desta natureza, apontando a possibilidade de uma realização trienal. «A implementação precisa de espaço para respirar. As obras são colocadas nos locais, mas não terminam naquele momento. Envelhecem com o tempo e contam outras histórias. Com o tempo, vamo-nos apercebendo de coisas diferentes, por isso é necessário deixá-las amadurecer», salienta.
Filipa Frois Almeida destaca que «Portugal tem paisagens lindíssimas, pelo que faz todo o sentido trabalhar, valorizar e conhecer melhor o que é nosso. Por vezes, há quem que não conheça locais muito bonitos e específicos que existem nas suas terras», sublinhando a importância de levar as pessoas a descobrirem o território.
A arquiteta acrescenta que o “Desencaminharte” teve como «referência projetos que trabalham com o conceito de “land art”», apostando em «peças espalhadas pelo território natural, que de alguma maneira dinamizam». A rota turística Nasjonaleturistveger (Noruega) e o programa de arte pública Münster Skulptur Projekte (Alemanha) foram fontes de inspiração.

 

João Crisóstomo (depA)
«As dez peças funcionam em rede»

“Sulco”, do coletivo depA, está em Lamas de Mouro (Melgaço). Foto de Filipa Frois Almeida.

“Sulco” foi a criação do coletivo depA para Lamas de Mouro, município de Melgaço.
João Crisóstomo refere que, para os depA, «enquanto arquitetos», foi um «privilégio» trabalhar com um «espaço qualificadíssimo» como Lamas de Mouro.
O autor admite que foi «uma responsabilidade e um grande desafio» criar uma peça para um local que é reserva natural. «O desafio que nos propusemos foi explorar esse brutal confronto com a natureza-mãe do Parque Nacional», relata.
João Crisóstomo explica que «a peça tenta transportar o visitante para uma nova experiência. A ideia de confronto entre o homem e a natureza transporta-nos para uma perspetiva diferente de uma visita mais natural ao Parque da Peneda-Gerês».
Em relação ao projeto, este autor sublinha a relevância das dez peças como um conjunto. «O que nós gostávamos que fosse mais visível na edição de 2018 do projeto “Desencaminharte” é o facto de ser um conjunto de dez peças. Como as obras de arte funcionam em rede, cada uma vai proporcionando diferentes experiências ao longo do território», declara este autor.

 

Dalila Gonçalves
«O artista tem de trabalhar sempre com a mesma exigência»

Obra de Dalila Gonçalves pode ser encontrada em Romarigães (Paredes de Coura). Foto de Filipa Frois Almeida.

Dalila Gonçalves assina a peça “Ver através da árvore”, que pode ser encontrada no Caminho das Piçarras, Romarigães, concelho de Paredes de Coura. O convite para integrar o “Desencaminharte” surgiu por parte dos FAHR 021.3, com quem já tinha trabalhado noutros projetos.
A artista admite que a participação neste projeto foi «super-desafiante»: «Como artista plástica, tenho uma prática e um processo de trabalho diferente da prática da arquitetura. Foi um desafio trabalhar com um espaço e com uma escala que não é a minha prática habitual, uma vez que trabalho muito mais em estúdio».
Dalila Gonçalves salienta que, «quando se trabalha para o espaço público, na criação de uma peça que vai interferir no quotidiano das pessoas que por ali passam, há sempre o cuidado de que haja um gesto na paisagem, mas que essa intervenção não modifique demasiado a paisagem, nem seja demasiado impositiva».
A autora considera ainda que, seja para um contexto mais rural, mais afastado das grandes urbes, ou para locais que têm mais contacto com a arte, o que o artista tem de fazer é trabalhar sempre com a mesma exigência para fazer o melhor trabalho possível», pois este é o caminho para conquistar apreciadores de arte.

 

Ivo Barão (Barão-Hutter)
Obra de arte deixa pistas para proporcionar reflexão

“Porta-caça do Mosteiro de Sanfins” está em Valença, no Mosteiro de Sanfins. Foto de Filipa Frois Almeida.

O ateliê Barão-Hutter criou a peça “Porta-caça do Mosteiro de Sanfins” para o Mosteiro de Sanfins, no concelho de Valença.
Ivo Barão refere que este «não é um local estranho ou diferente para se pôr uma obra de arte». É, contudo, «um espaço difícil» para se trabalhar pela sua dimensão patrimonial.
Os autores tentaram recuperar uma antiga lenda e formalizá-la. Trata-se da lenda do primeiro salmão e do primeiro javali, que eram entregues aos frades de Friestas.
«Esta é uma oportunidade para explicar coisas que não são visíveis à partida num território, mas também para deixar pistas para as pessoas poderem refletir», afirma o arquiteto.
Ivo Barão explica que a lenda não é algo que se veja quando se visita o convento, no entanto, quando aparecem as peças para pendurar e cozinhar um javali e um salmão, num ritual anual, começa-se a perceber que a área do convento era muito maior e abrangia a montanha e o rio.

 

Arcos de Valdevez recebeu os autores

Gabriela Albergaria é a autora de “Rasgo no solo”, obra que está em Vila Nova de Cerveira. Foto de Filipa Frois Almeida.

A edição de 2018 do “Desencaminharte” ficou concluída com o evento de encerramento, que se realizou no passado dia 7 de abril, na Casa das Artes de Arcos de Valdevez, com um debate com a presença dos dez autores.
A iniciativa contou com a participação do presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves, e do vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, Jorge Mendes.
Na altura, foi apresentado o livro “Arte aplicada ao Lugar – Desencaminharte 2018”, com textos de Valter Hugo Mãe, Laura Castro e Mariana Pestana, e o filme “Trilho”, de Miguel C. Tavares, sobre as peças realizadas.
Filipa Frois Almeida refere que o livro e o filme retratam o processo que culminou com as obras no locais para os quais foram pensadas, mostrando «os esforços de uma equipa que trabalhou com garra até ao final».
À semelhança do ano anterior, a edição de 2018 foi cofinanciada pelo Norte 2020 – Programa Operacional Regional do Norte.

 




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